Perimplantite: etiologia, diagnóstico e tratamento.
Uma revisão da literatura

Resumo

          Diversos estudos indicam a contaminação bacteriana como sendo o agente etiológico da perimplantite, pelo acúmulo de biofilme dento-bacieriano ao redor dos implantes dentais. O objetivo deste estudo foi realizar uma revisão da literatura corrente bem discutir os mecanismos que contribuem para a instalação e perpetuação da infecção perimplantar.

Abstract

          Many studies about periimplantitis etiology were carried out, so many authors shows the bacterial contamination as your etiological agent when tooth bacterial biofilm accumulates around implants. Theaim ofthisstudy was to present a literature review, as well as discuss the ways that support the beginning and the continuity ofperiimplantar disease.

Palavras-chave

          Perimplantite; doença periodontal, implante dental, etiopatogenia.

Key-words

          Periimplantitis, periodontal disease, dental implant, etiopathogeny.

Introdução

          Diversos estudos clínicos indicam a alta probabilidade de sucesso na integração 'dos tecidos moles e duros à superfície dos implantes osseointegráveis, com ocorrência de mínima reabsorção óssea (ADELL et al., 1990).
          Uma perda óssea moderada durante a cicatrização e fase funcional inicial foi interpretada como resultado de colonização microbiana ou como sendo processo de remodelamento da carga funcional inicial (BEHNEKE et al., 2000).
          Entretanto, tem sido observada em algumas situações a ocorrência de destruição óssea de caráter progressivo e elevados níveis de inflamação clínica. A etiopatogeniadas doenças perimplantares é multifatorial. O risco de ocorrência da doença perimplantar é determinado por fatores específicos do paciente, como: a presença de microbiota patogênica, sobrecarga oclusal por parafunção e/ou bruxismo, ausência de passividade da prótese e susceptibilidade individual (BEHNEKE et al., 2000).
          O acúmulo de placa subgengival, principalmente formas gram-negativas anaeróbicas, é considerado o principal fator etiológico em doença perimplantar avançada (TILLMANNS et al., 1998).
          Para avaliar o estado dos tecidos perimplantares, têm sido utilizados parâmetros clínicos periodontais, apesar das diferenças anatômicas e histológicas entre o tecido periodontal e perimplantar (TILLMANNS etal., 1997). A ausência de mobilidade é freqüentemente utilizada como parâmetro de sucesso, tendo em vista o fato de os implantes apresentarem uma "anquilose funcional" (TILLMANNS etal., 1997).
          A contaminação ou a perpetuação da microbiota perimplantar pode ser resultado da microinfiltração de gaps existentes entre o implante e o abutment como sugerido no estudo in vitro de JANSEN et al. (1997).
          Várias modalidades de tratamento da perimplantite têm sido sugeridas com objetivo de eliminar a(s) causa(s) da doença e restabelecer a condição original dos tecidos perimplantares. Basicamente, dois modos de tratamento têm sido propostos: ressectivo e regenerativo. O tratamento ressectivo consiste em eliminar o fator etiológico e manter uma condição perimplantar ótima, proporcionando condições de higiene da superfície dos implantes. O tratamento regenerativo visa reduzir o defeito ósseo da região afetada e promover a "reosteointegração" (HASS et al., 2000).
          O presente estudo visa realizar uma revisão de literatura acerca das características da perimplantite, bem como seu diagnóstico e tratamento.

Revisão de Literatura:

          PERSSON et al., (1996) avaliaram a colonização bacteriana nas superfícies internas de componentes de implantes, a partir de exames microbiológicos e radiográficos de próteses fixas em função por um período de 1 a 8 anos. Os exames microbiológicos foram realizados em amostras de placa bacteriana obtidas das superfícies dos abutments em dois sítios distintos: I) da área abaixo do anel de silicone no parafuso; 2) dentro do abutment abaixo do nível do anel de silicone. Os estudos radiográficos foram realizados para avaliar o grau de perda óssea de cada implante. Foram observadas pequenas perdas Ósseas e consideráveis crescimento bacteriano na superfície interna dos implantes. Os autores sugerem que a presença bacteriana é dada pela contaminação do abutment durante a primeira e/ou segunda cirurgia, e/ou pela transmissão do microorganismo da cavidade bucal durante a função após a instalação da prótese. Concluíram que acolonização bacteriana em voltado implante e a"penetração dos microorganismos e de seus produtos via microgap podem constituir risco para o tecido perimplantar levando à inflamação e perda óssea.
          JANSEN et al., (1997) avaliaram a microinfiltração e adaptação marginal na interface implante/abutment em 13 combinações de implantes fornecidos por 9 sistemas diferentes. As amostras foram separadas conforme o design dos abutments, em cônicos e planos. Os resultado obtidos foram os seguintes: a Calcitek mostrou nível de contaminação em todas as amostras, enquanto que nos demais sistemas houve diferentes níveis de penetração bacteriana. O conjunto mais vedado foi encontrado nas amostras de Frialit 2 com anel de silicone, IMZ com IMC e Semados. A utilização do anel de silicone reduziu a penetração bacteriana. Todas as amostras apresentaram colonização bacteriana no 10 dia, com exceção do Frialit 2 com anel de silicone. Os autores concluíram que os implantes estudados não previnem a penetração e colonização bacteriana, exigindo, portanto modificações para atingir tal objetivo.
          TlLLMANNS et al., (1997) avaliaram experimentalmente o comportamento clínico do colapso perimplantar. Foram avaliadas as superfícies de titânio puro, plasma spray de titânio (TPS) e de hidroxiapatita (HA) de 84 implantes instalados em 14 cães. Foram medidos a profundidade de bolsa, o nível de inserção e a mobilidade, sendo os cães sacrificados com 3 e 6meses. Em todos os casos foi observada significante perda de inserção. Em geral, uma maior mobilidade foi observada em implantes de Titânio puro, sendo significativamente maior nos 3 primeiros meses.
          KELLER et al., (1998) realizaram um estudo com 15 pacientes (8 homens e 7 mulheres) parcialmente edêntulos, com idade entre 25-82 anos, com implantes ITI, com o objetivo de avaliar clínica e microbiologicamente a área do perimplante, em próteses cimentadas e aparafusadas. Os autores concluíram que os gaps entre abutment e implante foram colonizados, que a composição da microbiotado sulco perimplantar é influenciada pela microbiota dental e que o modo de fixação das próteses teve pequena influência nos resultados clínicos e microbiológicos.
          GROSS et al., (1999) avaliaram a microinfiltração na interface implante/abutment, em 5 tipos de implantes, com vários torques de fechamento aplicados por 5 segundos cada (10N, 20N e o recomendado pelo fabricante), analisando três regiões de cada sistema de implante. Obtiveram os seguintes resultados: o nível nas amostras de implantes da STERI-OSS foi considerado alto em torques de 10N e 20N quando comparado com o dos outros sistemas; em relação à infiltração o sistema ITI apresentou o pior resultado com o torque recomendado pelo fabricante, enquanto entre os demais sistemas não houve diferença significativa. Os resultados deste estudo sugerem a passagem de fluidos por gaps. A ocorrência de odor e sangramento, característicos de bactérias anaeróbias, na remoção do abutment ou cicatrizador pode ser conseqüência dos efeitos desta microinfiltração. Por fim, os autores concluíram que a utilização dos torques recomendados pelo fabricante pode reduzir os efeitos da microinfiltração.
          ORSINl et al., (2000), apresentaram um caso clínico onde observaram a região perimplantar e infiltração bacteriana em implantes após necropsia. Foram encontrados gaps que variavam de 1 a 5 mm entre o implante e o cicatrizador, que encontravam-se colonizados por bactérias e com a presença de cálculo. Também foi observada a presença de infiltrado inflamatório no tecido conjuntivo perimplantar. Os autores afirmaram que os espaços entre o implante e seus componentes podem atuéu como depósitos de bactérias que causam a inflamação dos tecidos perimplantares.
          BESIMO et al., (1999), realizaram um estudo in vitro para avaliar o fluxo bacteriano pelos gaps entre coroas pré-fabricéluas e implantes, após estes terem sido selados com um verniz à base de clorexidina (Cervitec). Concluíram que a contaminação bacteriana pode ser desfavorável para o tratamento da inflamação perimplantar bem como contribuir para seu aparecimento, sugerindo a utilização do Cervitec na selagem dos gaps para prevenir a penetração bacteriana.
          HANISCH et al., (1997) avaliaram a formação óssea e a "reosseointegração" após implantação cirúrgica de proteína morfogenética do osso humano (rhBMP-2) em defeitos perimplantares. Implantes com superfície de hidroxiapatita (HÁ) foram instalados bilateralmente na mandíbula e na maxila, na região de pré-molar, em 4 macacos Rhesus e permaneceram osseointegrados por um ano. Foi realizada a indução da doença perimplantar com ligadura de algodão que permaneceu por 11 meses, tendo como resultado um defeito circular. A cirurgia reconstrutiva dos defeitos perimplantares nos quadrantes contralaterais receberam rhBMP-2 e membrana de colágeno absorvível. Os animais foram sacrificados após 4 meses e os blocos ósseos preparados e avaliados. Concluíram que a rhBMP- 2 tem potencial de promover formação óssea e "reosteointegração" em defeitos avançados de perimplantite em modelos primatas não humanos.
          HASS et.al., (2000) propuseram um novo método de tratamento da perimplantite. As superfícies de 24 implantes cilíndricos TPS (IMZ) de 17 pacientes diagnosticados com a doença foram descontaminados com uma combinação de azul de toluidina e irradiação de laser de comprimento de onda de 906 mm. Os defeitos ósseos foram preenchidos com osso autógeno e cobertos com membrana de e-PTFE para retenção do material de enxerto. A exposição prematura ocorreu em todos os pacientes após mais ou menos 3 semanas (+ ou -10 dias), sendo necessária remover a membrana exposta em 1 paciente. Os tecidos gengivais mostraram mínimos sinais de inflamação e as membranas foram mantidas por 6 semanas nos demais pacientes. A média de ganho ósseo radiográfico foi de 2,0mm após 9,5 meses (maxila 2,5mm e mandíbula 1,9mm). Dois implantes tiveram que ser removidos após 10 e 35 meses respectivamente. Quanto mais a membrana ficou coberta pelo tecido gengival maior foi o ganho ósseo. Muito embora, não haja sinais de inflamação, as membranas expostas devem ser removidas imediatamente e, contudo os resultados mostraram que o tratamento é eficaz como método de prolongar os implantes com perimplantite.
          HÖHN et al., (2001) relataram um caso clínico de perimplantite. A paciente de 42 anos relatava desconforto na região de 10 e 20 pré-molares esquerdos da maxila, onde haviam sido instalados 2 implantes. Após avaliação clínica e radiográfica, foi constatadas a presença de perimplantite, com perda óssea ao redor dos implantes. Foi administrado antibioticoterapia sistêmica, dois dias antes da cirurgia para remoção de todo tecido de granulação, foi aplicada solução de tetraciclina por 3 minutos, lavado com soro fisiológico, o defeito ósseo foi preenchido com osso autógeno e protegido por uma membrana reabsorvível. Após 4 meses a paciente foi submetida a novo exame radiográfico e constatada formação de novo osso ao redor dos implantes. Os autores concluíram que a regeneração tecidual guiada no tratamento da perimplantite mostrou resultados satisfatórios tanto nos casos com utilização de enxertos ósseos ou quando utilizados isoladamente.

Discussão:

          A inflamação do tecido mole e a perda óssea perimplantar ocorrem após a colonização bacteriana. A presença de bactérias ao redor do implante e a penetração das mesmas e de seus produtos ocorre após a contaminação da superfície do abutment depois da primeira e/ou da segunda cirurgia, após transmissão dos microorganismos da cavidade oral, durante a função dos implantes (PERSSON et al., 1996).
          PERSSON et al., (1996), observaram um grande crescimento bacteriano na superfície interna dos implantes, ao analisarem as amostras, constataram a presença de estreptococos, bastonetes Gram positivos anaeróbios (Eubactérias e Actinomices Sp.) e bastonetes Gram negativos anaeróbios (Fusobactéria.ç, Prevotella e Porfiromonas Sp.). Já KELLER et al. (1998), ao avaliarem a região do perimplante em casos com próteses cimentadas e com aparafusadas, encontraram Fusobactérias em 58% das amostras; C. Retus, P. intermedia e Capinocitofaga em 1/3 das amostras e P. gengivalis em 1/10 das amostras. O Aa foi encontrado em apenas uma amostra obtida da parte interna do parafuso de fixação.
          Vários autores observaram a presença dê microgaps entre o abutment e a superfície do implante (KELLER et al. 1998; PERSSON et al., 1996). Estes gaps facilitam acolonização inte;"na dos implantes (PERSSON et al.;1996, ORSINl et al.; 2000). Tal colonização pode ser evidenciada clinicamente pela presença de mau odor e sangramento, característicos de bactérias anaeróbias, quando se .remove o abutment ou cicatrizador (GROSS et al:, 1999).
          Alguns métodos têm sido descritos a fim de eliminarem ou reduzirem a presença desses microgaps. GROSS et al, (1999) ao avaliarem o grau de microinfiltração nesses gaps em 5 sistemas de implantes com vários torques de fechamento, concluírai11 que é recomendável o uso dos torques sugeridos pelos fabricantes como recurso para minimizar essa microinfiltração. BESIMO et al. (1999), após selarem esses gaps com um verniz de clorexidina (Cervitec), avaliaram o comportamento bacteriano e chegaram à conclusão de que esse procedimento pode prevenir a penetração bacteriana. JANSEN et alo (1997) após avaliarem 9 sistemas de implantes, recomendam o uso de metal maleável para cobrir as áreas de contato entre implante e abutment ou a utilização de um anel de silicone, pois verificaram que o conjunto mais vedado foi encontrado nas amostras de Frialit 2 com esse anel que foi efetivo no vedamento, reduzindo assim a micro infiltração.
          Após avaliarem o comportamento clínico do colapso perimplantar em superfícies de implantes de titânio puro, TPS e com HA, TILLMANNS etal. (1997), não observaram diferenças significativas entre eles, chegando a uma conclusão simples, mas não menos importante, de que uma meticulosa higiene oral e manutenção regular são pré-requisitos para o sucesso em implantodontia.
          BIANCHJNI et alo (2002), recomendaram um extremo cuidado tanto na instalação quanto na manutenção dos implantes, enfatizando a importância do diagnóstico precoce no tratamento das perimplantites. Quando as tentativas de prevenir a colonização bacteriana e a instalação de perimplantite falham, passa a ser necessária a adoção de medidas terapêuticas. Vários métodos de tratamento são propostos na literatura, sendo que todos visam primordialmente a descontam inação da superfície do implante comprometido.
          HASS et al, (2000), sugeriram a descontaminação da superfície de implantes com azul de toluidina seguida por irradiação de laser com comprimento de ondade906mm.
          HÖHN et al, (2001), recomendaram a antibioticoterapia sistêmica dois dias antes da cirurgia para remoção de todo o tecido de granulação e aplicação de solução de tetraciclina por 3 minutos seguida de lavagem com soro fisiológico.
          Outro desafio parece ser a regeneração do tecido ósseo perdido pela perimplantite. HASS et al, (2000), obtiveram resultados positivos com o preenchimento dos defeitos ósseos com osso autógeno e recobrimento com membrana de e-PTFE para retenção do material de enxerto. HOHN et al, (2001), usaram osso autógeno protegido por uma membrana reabsorvível e também obtiveram bons resultados.
          HANISCH et al, (1997), recomendaram a implantação cirúrgica de proteína morfogenética do osso humano (rhBMP-2) e membrana de colágeno absorvível, em defeitos avançados de perimplantite para promover a formação óssea e restabelecer a osseointegração.

Conclusões:

1. Não há diferenças entre a microbiota da perimplantite e a da periodontite;
2. Parece haver influência da presença de microgaps no estabelecimento da perimplantite, bem como na sua evolução e perpetuação;
3. Parece não haver diferenças entre próteses cimentadas e parafusadas;
4. A eliminação desses gaps parece ser fundamental para o tratamento da perimplantite;
5. A descontaminação da superfície do implante é a base do tratamento da perimplantite;
6. Parece controversa a técnica de regeneração óssea guiada ósseo ao redor do implante;
7. Mais estudos devem ser realizados a fim de definir um protocolo de tratamento, bem como uma técnica de reparação.

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