Avaliação da resistência da união cimentada de conexões protéticas modificadas para carga imediata

Resumo

          No presente trabalho, a geometria e acabamento dos componentes protéticos para carga imediata foram modificados para permitir uma melhor moldagem, adaptação e retenção. Ensaios de tração foram realizados para avaliar a influência das alterações na resistência da interface de união do anel de titânio com a prótese de NiCr cimentada com PanaviaF. Os resultados dos ensaios mecânicos mostraram que as modificações feitas nas conexões proféticas aumentam significativamente a resistência da interface de união com cimento PanaviaF, a qual foi maior que a resistência mecânica do parafuso de titânio da,prótese e superior aos valores encontrados na literatura.

Abstract

          In lhe present work, lhe geometry and surface finish of dental implant prosthesis for immediate load were modified to allow a better cast fabrication and improve adapration and retentive strength. Tension test were accomplished to evaluate lhe influence of lhe alteratIons in lhe resistance of lhe interface union of lhe titanium cylinders with lhe NiCr prosthesis cemented with PanaviaF. Retentive strength measurements revealed that lhe modi fications donein lhe dental implant prosthesis increase lhe interface union resistance, which was larger than lhe mechanical resistance of lhe titanium prosthesis screw and higher than lhe literature values.

Palavras chaves

          Próteses, próteses fixas, implante osseointegrável.

Key words

          Dental prosthesis, prosthesis fitting, dental implant

Introdução

          As próteses parafusadas sobre implantes são mantidas estáveis e os componentes protéticos mantêm a integridade, desde que os pilares intermediários e as conexões sejam corretamente assentados, exista passividade clínica dos parafusos e os filetes das roscas dos parafusos não fiquem submetidos às tensões de montagem dos componentes, mas, apenas a pré-carga aplicada no aperto do parafuso.
          Diversos pesquisadores têm salientado a necessidade da passividade das próteses implantosuportadas para minimizar as complicações ao longo do tempo (1, 2, 3). Outros pesquisadores questionam a importância desta passividade para garantir a osseointegração (4, 5). De qualquer forma a sobrecarga na prótese pode causar afrouxamento prematuro do parafuso do pilar intermediário, fratura dos componentes e perda da osseointegração.
          Em 1996, Jiménez (6) sugeriu algumas modificações na técnica de preparação da prótese implantosuportada cimentada sobre pilares ou rosqueada sobre pilares para obter um ajuste passivo e evitar as tensões negativas. Para a preparação de prótese múltipla, este pesquisador sugere o uso de uma estrutura fundida em uma peça única, sem a necessidade de corte e soldagem, na qual é colocado apenas um cilindro de ouro a ser usado como referência para posicionar a prótese na boca. Nas regiões dos demais pilares faz-se a preparação de cavidades que posteriormente recebem os cilindros de ouro que são cimentados diretamente na boca. O procedimento proposto melhora a posição dos cilindros de ouro e dos pilares e diminui as tensões comuns nas próteses múltiplas.
Em 1998, o Departamento de Desenvolvimento e Pesquisas da Conexão Sistemas e Próteses desenvolveu novo componente protético para carga imediata. Mostra-se na Figura I os componentes desenvolvidos, destacando-se o anel de titânio e os componentes de moldagem modificados. O sistema desenvolvido é indicado tanto próteses unidas por soldagem laser como para cimentadas. O conjunto é usado com o sistema Micro Unit mostrado na Figura 2.
          Em 2001, Randi e colaboradores (7) propuseram algumas modificações nos cilindros de ouro para obter melhor adaptação e resistência dos componentes protéticos. Estes pesquisadores usaram cilindros de ouro Nobel Biocare modelo DCB 141 e para facilitar a moldagem e fundição da estrutura metálica fizeram no laboratório a remoção por desgaste do quadrado retentivo da região coronária.
O objetivo do presente trabalho é ana)isar a pro- posta de modificação da forma e da morfologia da superfície externa do anel de titânio protético e quantificar a influência destas modificações na resistência da interface de união do anel de titânio cimentado com PanaviaF (Kuraray) ao casquete fundido de níquel-cromo.

Materiais e Métodos

          Os anéis de titânio foram projetados e fabricados sem o quadrado e o sulco de retenção da região coronária e na superfície externa foram criados microsulcos de usinagem, Figura 3.
          Os casquetes de NiCr foram moldados com auxílio do anel plástico, do anel espaçador e com a réplica do pilar intermediário, todos mostrados na Figura 3. As próteses de NiCr foram fundidas empregando-se a técnica convencional de fundição com centrífuga. Após a fundição fez-se o jateamento da superfície interna da prótese com alumina. O jateamento cria microcavidades na superfície.
Os anéis de titânio foram unidos à réplica do pilar intermediário com parafusos de titânio comercialmente puro grau ASTM 2. As amostras dos casquetes de NiCr foram unidas aos anéis de titânio com cimento PanaviaF, Figura 3B. Após a cimentação os componentes foram mantidos a temperatura ambiente durante 72 horas e submetidos ao ensaio de tração. Para os ensaios mecânicos, as amostras foram fixadas no dispositivo mostrado na Figura 3C, o qual prende em uma extremidade a prótese de NiCr e na oposta o pilar intermediário, Figura 3D. Este dispositivo foi preso pela garra da máquina de ensaio de tração EMIC DL10000, conforme mostrado na Figura 3E.
          Com base nos desenhos de fabricação, calculou-se a área externa do anel de titânio que recebeu o cimento (40,2mm2) e a área interna do componente protético de NiCr fundido (41,63mm2). Ainda com base nos desenhos calculou-se o volume da folga entre os componentes que receberam o cimento. Para o cálculo do volume foi considerado que o anel e a cavidade da prótese de NiCr têm forma de cone truncado. O volume calculado da quantidade de cimento PanaviaF aplicado foi de 1,5 mm3.
          Antes e após os ensaios mecânicos as amostras foram analisadas no microscópio eletrônico de varredura.

Resultados e Discussão

          Existem dificuldades para se obter interfaces de união dos metais nobres com boa resistência à tração e ao cisalhamento. Para solucionar esta dificuldade na união dos componentes protéticos fabricados com ligas nobres são usadas retenções mecânicas, oxidação e estanhagem da superfície de contato (6). Os novos componentes protéticos para carga imediata, testados no presente trabalho, foram desenvolvidos com base nos conceitos teóricos e conhecimentos adquiridos na prática clínica.
          Mostra-se nas Figuras 4 a morfologia da superfície externa do anel de titânio com forma modificada. Pode-se observar que o anel de titânio não possui o sulco na região do colar normalmente, existente nos sistemas convencionais das próteses comerciais. Na superfície do anel existem ranhuras profundas e simetricamente distribuídas. Estas ranhuras de usinagem facilitam a adesão dos componentes cimentados.
          Mostra-se na Figura 4B que a superfície interna do casquete fundido apresenta microcavidades oriundas do processo de fundição seguido de jateamento com alumina. Na Figura 4C mostra-se a morfologia da réplica do pilar intermediário reto tipo micro unit utilizado como base para a moldagem de prótese NiCr. O anel de titânio foi fixado ao pilar micro unit com parafuso de titânio antes da cimentação.
          Pode-se observar na Figura 5 que a adaptação obtida dos componentes cimentados é boa. Esta característica dificulta a penetração de células, a qual não foi analisada no presente traba-
lho
          Nos ensaios mecânicos, obteve-se que a força média necessária para separar os componentes protéticos foi de 75,85 ± 5,82 kgf (744,08 ± 57,09 N). Dividindo-se o valor da força média de resistência pela área resistente (40,2 mm2) obtemos a tensão média aplicada ao sis- tema cimentado, a qual foi de 1,88 ± 0,14 kgf/mm2 (18,51 ± 1,42 MPa). Os valores das forças aplicadas nos ensaios de tração para separar os componentes são mostrados na Figura 6. Pode-se observar que existe uma pequena variação na resistência mecânica da interface de união entre os corpos-de-prova; esta variação pode ser atribuída ao modo de aplicação do cimento, pressão aplicada aos componentes na fase inicial de cura do cimento e existência de bolhas no cimento.
          Analisando-se as amostras após os ensaios mecânicos constatou-se que em todos as amostras houve a falha do parafuso sem ocorrer a fratura da interface cimentada. Na Figura 7 mostra-se a superfície de um dos parafusos após o ensaio de tração, pode-se observar que houve deformação intensa dos filetes das roscas, os quais não suportaram a carga imposta no ensaio de tração.

Observa-se a fratura de alguns filetes da rosca do parafu-so.

          Uma vez que a falha ocorreu no parafuso da prótese, é possível afirmar que a resistência média à tração da interface cimentada é superior a 18,51 ± 1,42 MPa, Nas superfícies dos componentes fundidos existem uma cama- da de óxido de níquel e cromo e na superfície do anel há formação de uma camada natural de óxido de titânio, Os resultados do presente trabalho mostram que com as modificações propostas a adesão do cimento PanaviaF tanto ao óxido de níquel-cromo como ao de titânio é muito boa.
          Mostra-se na Tabela I os valores da resistência da união dos componentes protéticos obtidos por Randi e colaboradores (7) e os do presente trabalho. Aqueles pesquisadores, antes da cimentação, fizeram o jateamento da superfície interna do componente fundido e da superfície externa do anel. No presente trabalho, apenas a superfície interna do componente fundido foi jateada.
          Pode-se observar que os resultados das amostras 1 de todos os grupos na Tabela 1 apresentam resultados anormais. A menor resistência da amostra 1 pode ser atribuía à falta de cuidado no momento da cimentação dos componentes. Para o caso dos resultados do presente trabalho, pode-se observar na Figura 3B, que a amostra número 1 não está retilínea. A cimentação errada e angulada impediu a distribuição homogênea dos esforços durante o ensaio de tração e diminuiu consideravelmente a resistência da interface de união.
          Para a análise comparativa dos resultados obtidos por Randi e colaboradores com os do presente trabalho foram desprezados os valores do primeiro ensaio de cada grupo, os quais foram anormais por diferentes motivos. Pode-se observar que há diferença no valor entre as médias das resistências daS uniões dos componentes com emprego das modificações sugeridas por Randi e col e com uso dos componentes modificados no presente trabalho. A aI1álise estatística com o teste ANOV A comprava que a diferença nos valores dos ensaios é estatisticamente significativa entre os três grupos ensaiados.
          Os valores de Randi e colaboradores (7) indicam que a resistência média à tração dos componentes cimentados com Panavia 21 foi de 65,2 kgf após o tratamento da superfície da prótese telescópica com estanho e 41,4 kgf com o emprego de primer Panavia para metais. Todas as amostras em que as superfícies foram tratadas com primer apresentavam a falha na interface de união do componente fundido ao pilar, ou seja, a falha ocorreu no cimento. No caso do estaI1hamento da superfície do componente fundido a falha ocorreu tanto na interface de união (2 casos), como no parafuso (2 casos).
          No trabalho Randi e col, considerando apenas as falhas ocorreram nos parafusos, a carga média aplicada foi de 75,5 kgf. No presente trabalho, todas as falhas ocorreram no parafuso e a carga média na falha foi igual a 75,8 kgf, valor semelhante ao obtido por Randi e colo.
          Os resultados mostrados na Tabela I mostram que as modificações sugeri das no presente trabalho para os componentes protéticos para carga imediata são significativamente mais eficientes que as existentes na literatura e testadas por Jiménez (6) e por Randi e colaboradores (7). Além da maior resistência da união, a modificação sugerida não requer o condicionamento da superfície da prótese telescópica fundida ou do anel de titânio, o que torna o trabalho protético mais simples. No entanto. É essencial o emprego do jateamento tradicional da superfície interna da prótese de NiCr com alumina. Este procedimento remove a camada de óxidos de cromo e níquel que se forma durante a fundição e cria microcavidades que facilitam a adesão mecânica do cimento.

Conclusões

          As modificações propostas na forma do anel de titânio para carga imediata aumentam significativamente a resistência da união com a prótese fundida.
          Com as modificações das conexões para carga imediata, a resistência da união cimentada com PanêlviaF é superior 11 resistência do parafuso protético.
          Os valores da resistência de união dos componentes protéticoscimentados obtidos no presente trabalho são superiores aos encontrados na literatura, os quais podem ser indicados para emprego tanto em prótese imediata como mediata.

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