Falhas
e Complicações com o Sistema de Implantes Dentários Ha. Ti Mathys
em Cirurgia Maxilo-Facial
Harald
Schiel*
Eduardo José de Moraes**
Christian Besimo***
Resumo:
Este trabalho consiste na análise dos insucessos de 396 implantes
do Sistema Ha-Ti colocados em 118 pacientes de cirurgia maxilo facial, onde
observou-se um total de 27 implantações mal-sucedidas. Não só os implantes perdidos
foram considerados como insucessos, mas também aqueles mal-posicionados que
não obtiveram resultados protéticos satisfatórios foram considerados como tal.
Aspectos relacionados com a indicação, localização, recursos cirúrgicos combinados
as implantações com finalidade de melhorar a funcionalidade dos implantes
e a estética da prótese foram abordados neste trabalho.
Palavras-Chaves:
Implantes Dentários -Cirurgia Maxilo Facial - Falhas e complicações
Summary
Between 1988 and 1993 we inserted 396 Há- Ti implants
in 118 maxillofacial surgery patients with a total loss of 27 implants. Not
only implant loss, but also malpositioned implants preculding prosthodontics
treatment were counted as losses. Depending on localization, indication, preceeding
and combined surgical procedures used, the resulting implant loss rates were
variable. When it comes to assessment of functional and esthetic aspects, a
borderline situation is reached.
Key-words:
Dental Implants - Maxillofacial Surgery - Failures
and complications
Introdução
O que geralmente caracteriza o fracasso em implantações
do tipo endósseas é a perda do elemento implantado. Porém
existem outros fatores que poderíamos considerar como uma implantação mal-sucedida.
Por isso ao analisarmos as falhas e complicações, devemos atentar para outros
aspectos que também poderão ser interpretados com tal.
Aspectos como posição desfavorável dos implantes, desenho
do implante, limite do osso remanescente, área disponível para colocação da
infraestrutura e a qualificação do implantodontista são fatores importantes
que podem resultar no insucesso da implantação.
A conscientização do paciente relativo a cuidados de
higiene são de extrema importância para o sucesso dos implantes. É importante
ressaltar ainda que o planejamento consiste na anamnese, indicação e seleção
do paciente (9), ou seja um planejamento interdisciplinar (14) afim de que possamos
ter um bom prognóstico para o nosso paciente.
Este trabalho apresenta especialmente pacientes implantados
com o Sistema Ha- Ti que foram acompanhados periodicamente (8), onde se procurou
analisar as falhas e complicações das implantações, decorrentes das fases pré,
trans e pós-operatórias.
Pacientes
Desde 1988 até o fim de 1993, foram atendidos na Clínica
de Cirurgia Reparadora do Hospital Cantonal de Basel e Aarau aproximadamente
118 pacientes (56 homens e 62 mulheres) totalizando 396 implantes Ha-Ti que
foram inseridos em cavidades orais atróficas, com aumento de rebordo e reconstruídas.
Foram feitas em média 51,37 cirurgias por ano, com a parte
protética sendo confeccionada pela Divisão de Prótese da Faculdade de Odontologia
de Basel e os pacientes acompanhados semestralmente.
Tabela 1
|
Tratamento
Utilizando o Sistema Ha- Ti no periodo 1988 - 1993
|
||||
|
Maxila
|
Implantes
|
Mandíbula
|
Implantes
|
|
|
Dentes
Fraturados
|
10
|
26
|
10
|
14
|
|
Dentes
com Problemas Periodontais
|
20
|
52
|
7
|
304
|
|
Pacientes
(n= 118)
|
30
|
88
|
||
|
Pacientes
(n= 396)
|
78
|
318
|
||
Resultados
Dos 118 pacientes implantados, 102 foram acompanhados
após a cirurgia, 10 vieram a falecer e 6 não retornaram as visitas periódicas,
embora tenham sido convocados. Em um paciente não foi possível realizar o trabalho
protético de 6 implantes inseridos em área reconstruída com enxerto na mandíbula,
por falta de cooperação do paciente.
Ao todo foram 396 pacientes implantados, porém 54 pacientes
não foram documentados até 31/12/93. Ficaram ainda 342 que foram acompanhados
até o final de 1993.
O período de osseointegração foi em média 6 meses e
o tempo que os implantes permaneceram em seu leito até apresentares problemas
foi de 2 anos e 7 meses. Em 372, casos os implantes ficaram submersos, 24 expuseram
na fase de osseointegração e em 42 casos surgiram deiscências no pós-operatório.
O critério de avaliação do sucesso dos implantes se
basearam nos exames clínicos e radiográficos. Durante o controle foram utilizados
parâmetros como: grau de mobilidade, percussão, sondagem do sulco gengival,
índice de sangramento e comparação radiográfica, para avaliação da situação
óssea periimplantar. Uma implantação só poderia ser considerada como satisfatória
se apresentasse a interface gengival sem irritação, sem mobilidade clínica e
radiograficamente uma situação óssea estável.
Dos 396 implantes, 27 foram perdidos (6,8% ) e durante
o exame diferenciado constatou-se que: 16 implantes (4,1 %) foram perdidos no
período de osseointegração, 3 (0,7% ) estavam em função e 8 (2% ) estavam mal-posicionados,
sem condições de receber a prótese (Tabela 2).
Tabela 2
|
Indice
de Perdas de Implantes Ha- Ti colocados no período 1988 - 1993
(n=27 - 6,8%)
|
|
|
Implantes
|
|
|
Mal
posicionados
|
8
|
|
Fase
de Osseointegração
|
16
|
|
Em
Função
|
3
|
No
momento do último controle haviam 101 pacientes com trabalhos protéticos confeccionados
sobre 315 implantes.
O maior índice de insucessos se deu na fase de osseointegração
de implantações simultâneas combinadas com técnicas de osteotomia do tipo Le
Fort I e aumento de rebordo com transplante de osso autógeno. Nessas situações
de 12 implantes colocados, 6 foram perdidos. Embora não tivessem apresentado
problemas durante a cicatrização, foram removidos na fase de exposição.
Outros 3 insucessos de implantes de deveram a técnica
de implantação incorreta, onde os implantes tiveram que ser removidos decorrente
de infecção pós-operatória em reconstrução com enxerto ósseo de calota craniana.
Não houve osseointegração de 5 implantes em pacientes onde a região óssea foi
tratada com radiação (Tabela 3).
Tabela 3
|
Indice
de Perdas (4,1%) durante a fase de osseointegração (n=16)
|
|
|
Le
Fort 1
|
6
|
|
Implantes
com Reconstrução da Maxila
|
2
|
|
Implantes
com Aumento de mandíbula
|
1
|
|
Região
anterior de mandíbula
|
2
|
|
Tratamento
Preliminar
|
5
|
Foram perdidos 3 implantes que estavam em função, sendo
que 1 implante foi removido após 1 ano e meio de um paciente que recebeu radioterapia;
e 2 de um caso que foi feito aumento de rebordo com enxerto em uma mandíbula
atrófica após 2 anos e 6 meses. Nesses dois pacientes os implantes perdidos
foram substituídos com resultado satisfatório.
No que diz respeito ao mal-posicionamento, 8 implantes estavam
tão desfavoráveis, que não foi possível a colocação da prótese. Por exemplo,
em um caso onde houve inserção de 5 implantes em área reconstruída com enxerto
de crista ilíaca, em função de ressercção parcial de mandíbula, 3 desses implantes
ficaram lingualizados promovendo um overbite de 17 mm. Apesar de um planejamento
insuficiente, 29 implantes puderam ser reabilitados no aspecto funcional, embora
com limitações estéticas significativas.
Em casos de crista alveolar reduzida decorrente de perda óssea
vertical e transversal, conseguiu-se resultados razoáveis (Fig. 1 ), porém para
confecção da supra-estrutura com uma boa relação oclusal, foi necessário a utilização
de conexões protéticas com angulagens e aumentar a área coronária, que geraram
limitações biomecânicas à prótese (Fig. 2).
Os casos onde foram realizados enxertos ósseos autógenos
em crista alveolar não muito extensas, para aumento da área de implantação,
tiveram resultados estético-funcionais aceitáveis (Figs. 3 e 4).

Fig. 1 Fig.
2

Fig. 3 Fig.
4
Discussão
Durante a osseointegração ocorreram componentes determinantes
das complicações (19), que gerou um prejuízo de 16 implantes perdidos. Um fator
importante nestas falhas também foi o desejo do paciente em receber os implantes
em uma única intervenção.
O número de perdas das implantações combinadas a osteotomias
do tipo Le Fort I e aumento de rebordo com enxerto autógeno (5,7) foi de 50%.
Comparativamente a reabsorção óssea dos enxertos autógenos em bloco é maior
na maxila do que na mandíbula (10). Esta reabsorção ocorre no sentido vertical
quando acompanhada da colocação simultânea de implantes (12,13).
No caso de radioterapia prévIa a cirurgia gera problemas
a nível de tecido mole e promove uma limitação na vitalidade óssea, que contribui
para o fracasso dos implantes (6,20).
Em 9 casos houve perda dos iplplantes por uma perfuração
mais profunda do que o comprimento do implante, e este foi inserido aquém do
fundo da loja. Embora não tivesse apresentado imagem radiográfica perceptível,
na região apical do implante. Devido a forma cônica as forças axiais trouxeram
um prejuízo ao osso circundante (21), levando estes implantes ao fracasso.
A inserção de implantes endósseos foi de indicação errônea
depois de reconstrução de maxila com osso autógeno removido da calota craniana,
após radioterapia prévia em área sem vascularização adequada, leva a perda dos
implantes em função (19).
No que concerne ao mal-posicionamento de 8 implantes
que não puderam receber prótese, foi considerado um índice alto em relação a
este tipo de insucesso. Com um planejamento adequado e com um trabalho conjunto
interdisciplinar (3,9, 17,18) a partir de 1992 estes problemas foram solucionados
em nosso serviço (tabelas 4 e 5).
Tabela 4
|
Especificação
das Perdas durante o Follow-up
|
|||
|
Ano
|
Malposicionado
|
Osseointegração
|
Função
|
|
1988
|
1
|
||
|
1989
|
2
|
||
|
1990
|
2
|
3
|
|
|
1991
|
3
|
7
|
|
|
1992
|
5
|
2
|
|
|
1993
|
1
|
1
|
|
|
Total
|
8
|
16
|
3
|
Tabela 5
|
Perdas
de Implantes durante o tratamento, região e indicação
|
||
|
Mandíbula
|
Maxila
|
|
|
Mal-posicionado
|
8
|
|
|
Osseointegração
|
3
|
|
|
Reconstrução
|
2
|
|
|
Tratamento
Preliminar
|
5
|
|
|
Le
Fort 1
|
6
|
|
|
Em
Função
|
||
|
Total
|
21
(5,3%)
|
|
Para
alcançar resultados estéticos e funcionais adequados (1), tivemos que alterar
em muitas situações a nossa conduta. O posicionamento da supra-estrutura em
relação a linha labial é decisiva para avaliação de um bom resultado estético.
Entretanto, os implantes em posição desfavorável não conseguem se manter quando
submetidos a carga funcional. Em regiões desfavoráveis (11 ), se fazem necessárias
cirurgias prévias com técnicas de regeneração tecidual guiada (2,4) e transplantes
ósseos (15;16).
Fica aberta a discussão sobre onde se deve colocar as
limitações, nas exigências estéticas e em que situações a função devem ser colocadas
a segundo plano.
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* Especialista
em Cirurgia Buco-Maxilo-Facial Prof. do Departamento de Cirurgia Buco-Maxilo-Facial
da Universidade de Basel Basiléia -Suíça
** Especialista em Cirurgia Buco-Maxilo-Facial Prof. Titular do
Instituto Brasileiro de Implantodontia Diretor Científico do Instituto
Brasileiro de Implantodontia
*** Especialista em Prótese Dental Prof. do Departamento de
Prótese da Universidade de Basel -Basiléia -Suíça