Tratamento e Reabilitação da Maxila Posterior
com Implantes Osseointegrados

Eduardo José de Moraes* - Aldir Nascimento Machado** - Fabio Browne de Paula***
                                             

 Resumo
         Neste trabalho os autores discutem aspectos importantes relacionados com a reabilitação da região de maxila posterior. Apresentaram um estudo clínico retrospectivo de 82 implantes osseointegrados de três sistemas diferentes que foram instalados nesta região utilizando várias técnicas cirúrgicas tais como: protocolos modificados de preparo de leito e instalação de implantes; elevação de assoalho de seio maxilar e implantes na tuberosidade maxilar com ancoragem pterigopalatina.         Constataram por meio dos resultados encontrados que a região posterior da maxila oferece condições previsíveis para as reabilitações com implantes osseointegrados.


Abstract
        This article the authors discuss importants aspects about rehabilitation of maxila posteriorregion. Presented a clinical retrospective, study of 82 osseointegrated implants with three diferents systems that has been installed. In this region using diferents surgical techniques modified protocols of bed prepare and implants installation; sinus elevation and implants in the maxillary tuberosity with pterigomaxillary ancorage. Constated by the results that maxilla posterior region offer previsible conditions for osseointegrated implants rehabilitation.


Palavras-chaves
        Osseointegração, maxila posterior,


Key words
        Osseointegration, posterior maxilla, implants rehabilitation

Introdução
        A reabilitação protética sobre implantes de pacientes com edentulismo da maxila posterior apresenta em muitas situações dificuldades para os implantodontistas. Estruturas anatômicas como os seios maxilares e a perda óssea no espaço sub-antral dificulta, sobremaneira, a instalação de implantes nesta região. Um outro aspecto importante está relacionado com a baixa densidade óssea, tendo em vista que o tipo de osso existente na região (Tipo IV) é um fator desfavorável para reabilitações com implantes osseointegrados. (MORAES, 1997).
        No sentido de viabilizar a instalação de implantes nesta região, foram desenvolvidas técnicas cirúrgicas que são alternativas com uma boa previsibilidade de sucesso. Dentre estas técnicas podemos citar: a elevação do assoalho do seio maxilar e protocolos cirúrgicos modificados para instalação de implantes na tuberosidade maxilar.
        ADELL et al ( 1981 ), apresentaram uma previsibilidade de sucesso de 81% dos implantes instalados na região de maxila. Os autores propuseram um protocolo cirúrgico para o preparo de leito e instalação de implantes na maxila diferente do utilizado na mandíbula. Em função da condição óssea preconizaram uma redução na velocidade de rotação e no número de fresas, no sentido de minimizar o trauma cirúrgico durante o preparo do leito ósseo.
       JAFFIN & BERMAN (1991), ressaltaram a dificuldade de reabilitação da região posterior da maxila apresentando uma taxa de insucesso de aproximadamente 35% em osso tipo IV.
       BAHAT et al ( 1992) comprovaram a previsibilidade de sucesso das reabilitações com implantes osseointegrados na região posterior da maxila, mediante um acompanhamento de 732 impiantes consecutivos do sistema Branemark. Concluíram que existem vários aspectos que devem ser considerados, dentre os quais: a minimização do trauma cirúrgico por meio de uma modificação no protocolo de preparo do leito ósseo e instalação do implante, assim como a ancoragem bicortical para melhorar a estabilidade mecânica da interface.
       MISCH (1993), apresentou protocolos cirúrgicos modificados em função da baixa densidade óssea existente na região, com o intuito de estabelecer uma boa fixação primária do implante, fundamental para o processo da osseointegração. Posteriormente outros autores sugeriram novas modificações na técnica cirúrgica de implantação com sucesso (VENTURELLI WONG, 1996).
       BALSHI et al (1995) , apresentaram um índice de falhas na maxila posterior de 13,7 % e com base em conceitos de utilização da bicorticalização favorecer a ancoragem de implantes em osso tipo IV, propuseram a instalação de implantes na região de tuberosidade com apoio na cottical pterigopalatina. Esta mesma proposta foi apresentada posteriormente por outros autores com resultados satisfatórios.(VALERÓN & VELÁZQUEZ , 1997)
       HUERZELER et al (1996), apresentaram um estudo clínico longitudinal de reconstruções de maxilas atroficas com elevação de assoalhos de seios maxilares utilizando diferentes materiais de enxertia obtendo bons resultados.
      TONG et al ( 1998), realizaram uma análise de 10 estudos longitudinais de reconstruções de assoalho de seio maxilar, e constataram uma previsibilidade de aproximadamente 90% de sucesso nestes procedimentos.
      O presente trabalho consiste em um estudo clínico retrospectivo em que foram acompanhados pacientes com implantes instalados na região de maxila posterior, com o objetivo de se apresentar opções de tratamento e analisar a previsibilidade de sucesso de reabilitação nesta região.


  Materiais e Métodos
      Foram instalados 82 implantes de três diferentes sistemas em 28 pacientes na região de maxila posterior no período de janeiro de l997 a junho de 2000. Utilizou-se 25 implantes do Sistema Frialit 2 (Friadent-Manheim), 27 implantes do Sistema Steri-oss (Nobel Biocare - Yorba Limba) e 30 implantes do Sistema Master Screw (Conexão - São Paulo). Em relação a aspectos da morfologia, utilizou-se implantes com as seguintes características: Sistema Frialit2 - parfusos escalonados, diâmetros: 3,8; 4,5 e 5,5 mm e comprimentos: 11 e 13 mm.   Sistema Steri-oss - parafusos de titânio, diâmetros: 3,8 ; 4,5 e 6,0 mm e comprimentos: 10, 12 e 14 mm.  Sistema Master Screw -parafusos de titânio, diâmetros:3,75; 4,0 e 5,0 mm e comprimentos: 10,11,5 e 13 mm.
    Para a instalação dos implantes utilizou-se protocolos cirúrgicos modificados para a maxila, técnicas de elevação do assoalho de seio maxilar e técnicas de implantação na tuberosidade maxilar, baseado nas técnicas apresentadas pela literatura.
    Os pacientes foram divididos em grupos de acordo com o tipo de técnica cirúrgica empregada, sistema de implantes e tempo de reabilitação. Foram acompanhados 11 pacientes do sexo masculino e 17 do sexo feminino com uma faixa etária de 25 a 62 anos.
    Em relação a cada paciente tratado utilizou-se uma padronização em relação a exames pré-operatórios, terapêutica medicamentosa, material de enxertia e cuidados pós-operatórios.

Caso clínico 1
Implantes Master Screw
Reabilitação na Tuberosidade maxilar



    
Fig. 1a                                           Fig. 1b                                              Fig. 1c


Caso clínico 2
Implantes Frialit 2
Elevação de assoalho do seio maxilar (tipo 1)


    
Fig. 2a - Cirurgia             Fig. 2b - Rx final              Fig. 2c - Prótese

Caso clínico 3
Implantes Steri-Oss
Elevação do assoalho do seio maxilar


      
Fig. 3a - Osteotomia da parede lateral
Fig. 3b - Instalação do implante
Fig. 3c - Rx final
Fig. 3d - Prótese final


Caso clínico 4
Implantes Frialit 2
Elevação de assoalho do seio maxilar (tipo 2) 1° e 2° tempo


     
Fig. 4a - Osteotomia da parede lateral do seio maxilar
Fig. 4b - Instalação dos implantes e condensação do material de enxertia
Fig. 4c - Reabertura após 6 meses (observar mineralização do enxerto)


Caso clínico 5
Implantes Frialit 2
Reabilitação da maxila posterior


    
Fig. 5a - Rx c/ prótese provisória
Fig. 5b - Preparo dos Pilares
Fig. 5c - Prótese final


Exame e Seleção de Pacientes
    Foi realizado uma avaliação clínica e laboratorial dos pacientes por meio de: questionário de saúde, exame clínico e exames laboratoriais. Para avaliação das condições sistêmicas os exames laboratoriais solicitados foram os seguintes: hemograma, coagulograma, bioquímica do sangue (dosagens: uréia, creatinina, cálcio, glicose, colesterol e fosfatase alcalina).
    Para avaliação das condições locais dos pacientes, além do exame clinico, cada paciente apresentou exame radiográfico panorâmico e periapical. Nos casos de planejamento de cirurgia de elevação de assoalho de seio maxilar, estabeleceu-se como protocolo a tomografia computadorizada; tendo em vista a necessidade do diagnóstico de patologias preexistentes as sintomáticas no seio maxilar. Esta conduta baseou-se na experiência clinica deste autor, assim como dados recentes de literatura que corroboram esta proposta (GARG et al., 2000). Constatou-se que em alguns casos as patologias de seio maxilar não são diagnosticadas mediante os exames radiográficos.

Técnica Cirúrgica
    As técnicas cirúrgicas adotadas foram: técnicas convencionais e modificadas de instalação de implantes na maxila; instalação de implantes na tuberosidade com bicorticalização pterigopalatina e as modalidades de elevação do assoalho do seio maxilar.
    A utilização da técnica convencional de instalação de implantes na maxila, proposta por ADELL et al (1981) e citada anteriormente, visa minimizar o trauma no leito ósseo. Posteriormente VENTURELLI e WONG (1996) apresentaram outros protocolos com algumas modificações, com o mesmo objetivo, porém, para instalação de implantes na tuberosidade e implantações imediatas em região de molares superiores respectivamente. Neste trabalho estes procedimentos foram aplicados de acordo com as suas indicações.
    O critério para a instalação de implantes na região sub-antral foi utilizado de acordo com as condições e indicações de MISCH (1993), , ou seja:
        SA -1: 10 a 12 mm        => implantação convencional
        SA-2: Sa10mm              =>elevaçãode2a4mmnoleitoc/osteotomo e instalação do implante
        SA -3: maior que 5 mm => osteotomia da parede lateral, descolamento da membrana sinusal, enxertia e instalação de implantes
        SA -4: menor que 5 mm => osteotomia da parede lateral, descolamento da membrana sinusal, enxertia com instalação de implantes após 6 meses (2 tempos).
        Com finalidade didática., o autor do presente trabalho propõe uma classificação para as modalidades de elevação do assoalho do seio maxilar. Tendo em vista que a literatura apresenta terminologia variada para conceituar estes procedimentos, tais como: levantamento em 1 estágio, levantamento atraumático, levantamento fechado, levantamento localizado, levantamento não invasivo, levantamento em 2 estágios, levantamento aberto e levantamento invasivo; assim como pelo fato das indicações propostas por MISCH (1993), terem sido modificadas por alguns autores. PELLEG et al (1998), recomendaram a instalação de implantes concomitante à cirurgia de elevação do assoalho do seio maxilar em condições de espaço sub-antral inferior a 5 mm (condição SA -4) contrariando a proposta de MISCH (1993) para esta situação.
               Por isso foi proposto a seguinte classificação para elevação de assoalho do seio maxilar, que foi utilizada na avaliação dos resultados:
             Levantamento de Seio Maxilar Tipo 1 (L.S; 1): Elevação com osteótomo de 2 a 4 mm através do leito ósseo com instalação do implante.
             Levantamento de Seio Maxilar Tipo 2 (LS 2): Osteotomia da parede lateral do seio maxilar, com descolamento da membrana sinusal, enxertia e instalação de implantes
             Levantamento de Seio Maxilar Tipo 3 (LS 3): Osteotomia da parede lateral do seio maxilar, com descolamento da membrana sinusal, enxertia sem instalação de implantes (2 Tempos).

Tabela 1 - Procedimentos Cirúrgicos

Sistema/Técnica
Convencional
Tuberosidade
Elev.Assoalho Seio Maxilar
Falha
Frialit 2
8
6
11
1
Steri-Oss
11
6
10
1
Master Screw
12
7
11
2
Total
31
19
32
4

Tabela 2 - Implantações Convencionais e Tuberosidade

Sistema/Técnica
Frialit 2
Steri-Oss
Master Screw
Total
Convencional
8
11
12*
31
Tuberosidade
6*
6
7
19
Falhas (*)
1
0
1
2

Tabela 3 - Elevação de Assoalho de Seio Maxilar

Sistema/Técnica
LS1
LS2
LS3
Falhas
Frialit 2
4
7
-
-
Steri-Oss
3
1
6
1
Master Screw
2
2
7
1
Total
9
10
13
2

 

Material de Enxertia
   O material de enxertia utilizado foi seguindo o protocolo proposto por MISCH ( 1993) e confirmado na análise de TONG et al (1998) que é a seguinte: a associação de osso liofilizado, HA reabsorvível e osso autógeno (proporção I: I: I). Em situações em que não houve possibilidade de preservação da membrana sinusal, optou-se pela reconstrução interna do assoalho com blocos ósseos autógenos de leitos ;.intra-orais ou extra-orais; fixados com microparafusos de titânio, conforme proposto pela literatura (BLOMQVIST et al, 1996 e 1998).
   A técnica de utilização de blocos ósseos fixados internamento sobrepostos ao assoalho do seio maxilar é uma alternativa de tratamento sugerida nos casos em que é necessário a sinusectomia, pela presença de patologias preexistentes no seio maxilar. Outros autores indicam este procedimento quando houver perfuração muito extensa (maior que 5 mm) impossibilitando a condensação do material de enxertia particulado. (TRIPPLET & SCHOW , 1996).


Resultados
    Constatou-se que dos 82 implantes instalados apenas 4 foram perdidos, perfazendo um taxa de insucesso de aproximadamente 4,87%. Sendo que 32 implante; foram instalados associados a cirurgia de elevação de assoalho do seio maxilar, 19 na tuberosidade e 31 em implantações convencionais.(tabela 1)
    As implantações na tuberosidade apresentaram apenas 1 implante perdido, um percentual de aproximadamente 5,26 %, o mesmo acontecendo nas implantações convencionais com 1 perda e um percentual de 3, 22 %. (tabela2)
    Dos 32 implantes instalados e associados a cirurgia de elevação de assoalho do seio maxilar apresentaram um percentual de falhas de aproximadamente 6,25 % (2 implantes), como podemos observar na tabela 3.

Discussão
    Os resultados encontrados no presente trabalho apresentam uma previsibilidade de sucesso para implantações na região de maxila posterior de aproximadamente 95 %. Este resultado clinico retrospectivo demonstra que embora existam aspectos que desfavorecem a instalação de implantes osseointegrados e a reabilitação protética nesta região, existem técnicas e alternativas que viabilizam o tratamento com sucesso.
     Os resultados alcançados em implantações convencionais foi de 96,77 % mais favoráveis do que podemos constatar na literatura que varia de 81% a 87% (ADELL et al, 1981 e BALSHI et al, 1995). Podemos ressaltar que protocolos modificados para instalação de implantes nesta região são alternativas importantes para o sucesso, confirmando as alternativas sugeridas por VENTURELLI e WONG (1996).
      Nos implantes instalados e associados às técnicas de elevação de assoalho de seio maxilar, obtivemos um percentual de insucesso de 6,25% , ou seja dentro dos parâmetros citados pela literatura que é de 10% (TONG et al, 1998).
     Em relação aos implantes instalados na tuberosidade os resultados demonstraram que este procedimento é uma importante opção de tratamento, principalmente nos pacientes, que por aspectos gerais e locais, inviabilizaram as cirurgias de reconstrução do assoalho do seio maxilar mais extensas. A bicorticalização de implantes na cortical pterigopalatina, demonstra ser uma opção previsível de tratamento corroborando os resultados apresentados por BALSHI et al ( 1995) e VALERÓN & VELÁZQUEZ, (1997).
  
Conclusões
        Neste trabalho podemos concluir que as técnicas preconizadas e utilizadas para o tratamento da região posterior da maxila apresentaram resultados satisfatórios. São procedimentos que se utilizados de forma criteriosa, ou seja com uma indicação correta e execução cirúrgica adequada; podem atingir resultados previsíveis.
        Um outro aspecto importante que convém ressaltar, é que todos os sistemas de implantes utilizados neste acompanhamento clínico, apresentaram uma taxa de sobrevida bastante elevada com um percentual de sucesso aproximado variando de 93% a 96 %, superior aos valores apresentados pela literatura.

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