Reabilitação oral sobre implantes osteointegrados
em enxerto ósseo de crista ilíaca em maxila atrófica

Francisco Pascoal Morganti*
Pedro Velasco Dias**

Resumo:
     Apresentamos um caso clínico em que a paciente recebeu enxerto ósseo de crista ilíaca previamente à colocação de implantes em maxila atrófica. Foram usados 10 implantes cilíndricos com superfície rugosa por jateamento na maxila e 5 implantes autorosqueáveis para a mandíbula (Sistema INP). Houve perda de dois implantes maxilares à abertura.

    Casos como estes são complexos e exigem múltiplos procedimentos, além da escolha correta de implantes e tipos de próteses para um bom prognóstico do caso. Escolheu-se prótese fixa maxilar em supraestrutura fixada em infraestrutura devido à extensa distância intermaxilares. Na inferior optou-se pelo modelo clássico de prótese fixa tipo protocolo.

    Casos semelhantes são cada vez mais frequentes entre nós graças ao ótimo preparo profissional e à boa qualidade dos implantes osteointegrados aqui produzidos.

Key Words:
    Osseointegração, reabilitação, prótese dentária,jateamento., ilíaco, enxerto

Introdução:
    Atualmente é inegável a importância e a segurança dos implantes osteointegrados em reabilitação bucal, com prognósticos muito favoráveis a longo prazo (BRANEMARK et al, 1977). Se em pacientes edêntulos, sem outra patologia, a reabilitação funcional e estética pode ser um desafio, este torna-se maior quando esse paciente apresenta sequelas orofaciais importantes, em consequência de traumas, tumores ou anomalias genéticas (VELASCO DIAS e cols., 1977).

    O sucesso em reabilitação por implantes osteointegrados inclui inevitavelmente a satisfação estética e psicológica do paciente (SMITH ; ZARB, 1989). Atualmente já não se discute muito o fenômeno clínico da osteointegração, embora sejam necessários mais elementos para a compreensão desse fenômeno. Os implantes cilíndricos com superfície rugosa por jateamento têm sido amplamente utilizados com índices de sucesso compatíveis com os períodos estudados dentro da literatura existente (SIQUEIRA e cols., 1997).

    Os implantes têm se mostrado extremamente úteis para a reabilitação oral de casos com atrofia óssea extensa ou perdas parciais do esqueleto mandibular em decorrência de tumores, e a associação de enxertos ósseos autógenos com implantes dentários osteointegrados tem permitido resultados favoráveis
a longo termo (BREINE & BRANEMARK,1980; ALBREKTSSON et al, 1980).

          A seguir mostraremos um caso clínico de reabilitação completa através de implantes osteointegrados após aumento parcial da maxila por enxerto de crista óssea ilíaca.

Caso Clínico .
    Mulher branca de 63 anos de idade apresentou-se com queixa de dificuldades mastigatórias e problemas estéticos devido à falta de estabilidade de sua prótese total superior. Ao exame clínico mostrava uma maxila atrófica, confirmado pela radiografia panorâmica, e seus dentes residuais inferiores apresentavam mobilidade por doença periodontal avançada (Figura1 ).

    Devido à falta total de osso alveolar na maxila (Figura 2) foi sugerido um enxerto ósseo de crista ilíaca previamente à colocação de implantes osteointegrados. Já a mandíbula apresentava osso residual adequado para, fixação de implantes, sendo planejada uma prótese fixa do tipo protocolo de Gotemburg. .

    A paciente apresentava-se em boas condições de saúde, física e psicológica, para passar por esse extenso tratamento. Inicialmente sob anestesia geral ela recebeu o enxerto para aumento da maxila, tendo um bom pós-operatório e uma evolução favorável, quer na área doadora, quer na área receptora do enxerto. Este foi fixado com parafusos para uma adequada estabilidade e um retalho vestibular permitiu a proteção adequada do mesmo (Figura 3 ).

    Três meses após esta cirurgia ela recebeu, sob anestesia local, 5 implantes autorosqueáveis (Sistema INP) na mandíbula para confecção posterior da prótese fixa (Figura 3) e, depois de três meses desta cirurgia foi realizada nova cirurgia para reabertura, comprovada a osteointegração, os implantes receberam seus respectivos cicatrizantes e iniciou-se a fase protética para confecção da prótese fixa provisória, enquanto se aguardava o andamento da parte superior.

    Após oito meses da colocação do enxerto de ilíaco, foram fixados dez implantes cilíndricos com superfície rugosa por jateamento (Sistema INP), sob anestesia local (Figura 4 ). Cinco meses mais tarde foram reabertos e após o teste clínico de osteointegração verificou-se que os dois mais centrais não estavam em boas condições e foram retirados, sendo colocados os cicatrizantes nos demais. Nesta fase houve necessidade de uma cirurgia gengival e de aprofundamento de sulco maxilar para melhorar acondição gengival e de possível gengiva inserida (Figura 5), devido ao retalho necessário para o recobrimento do enxerto ósseo. Iniciou-se o trabalho protético da parte maxilar .

   Foi confeccionada uma infraestrutura para receber supraestrutura própria com os dentes maxilares.

   Os trabalhos de prótese transcorreram como de hábito em suas diversas fases até a colocação final das próteses superior e inferior definitivas (Figuras 6 a 12).

    A paciente mostrou-se extremamente satisfeita com o resultado final e cuidadosa na higiene e controle de suas
próteses durante o seguimento do caso.

   
   
   

Legendas
1- Radiografia panorâmica inicial mostrando a reabsorção maxilar extensa e os dentes inferiores residuais portadores de doença periodontal avançada.
2- Aspecto da maxila atrófica em reconstrução tomográfica tridimensional .
3- Radiografia panorâmica mostrando os parafusos fixadores do enxerto de crista ilíaca na maxila. Nesta etapa já haviam sido fixados os 5 implantes inferiores autorosqueantes (Sistema INP ), sob anestesia local.
4- Radiografia panorâmica mostrando os 8 implantes cilíndricos com superftcie jateada inseridos na maxila sob anestesia local após 6 meses do enxerto de ilíaco.
5- Aspecto clínico bucal monstrando os implantes superiores com seus cicatrizantes após abertura, plástica gengival e aprofundamento do sulco inferior é uma fixa provisóra, tipo protocolo de Gottemburg.
6- Roletes posicionados de acordo com a dimensão vertical da paciente que está ajustando-os por desgaste de Paterson, visto anteriormente.
7- Aspecto do arco facial, para montagem em articulador semiajustável.
8- Prova dos dentes em cera e comprovação dos movimentos mandibulares.
9- Infraestrutura e supraestrutura com os dentes já acrilizados mostrando no plano o local dos parafusos palatinos.
10- Aspecto bucal com a infraestrutura em posição.
11- Supraestrutura em posição, parafuso central de fixação em evidência.
12- Aspecto bucal mostrando as duas próteses fixadas e a estética facial final.

Discussão
         Este trabalho de reabilitação teve a duração aproximada de 18 meses e exigiu a participação de uma equipe multidisciplinar incluindo, cirurgiões-dentistas, técnico de laboratórios e ortopedista. Assim o preparo psicológico da paciente para
passar por todas essas etapas é indispensável.

          Portanto, a participação da paciente em todas as fases ajuda na avaliação de suas expectativas e permite que ela acompanhe as dificuldades de seu caso e compreenda o resusltado final. Esse preparo psicológico para o uso e manutenção dos implantes é altamente motivador, embora a aprovação final e estética só seja feita ao final, quando o paciente recebe suas próteses e começa a se relacionar na família e na sociedade (SALOMÃO e cols, 1997).

          A perda dos dois implantes na maxila foi compatível com a dificuldade técnica de abordagem, muito próximo ao assoalho nasal, tendo havido inclusive um sangramento trans-operatório decorrente da mucosa nasal. Possivelmente este fato também contribuiu para a pobreza da osteointegração dos dois implantes. Portanto de um total de 15 implantes, 13 estavam osteointegrados e assim se mantém no acompanhamento tardio com o uso das próteses.

    A escolha de implantes com superfície rugosa por jateamento na maxila deve-se ao conhecido fato da qualidade trabecular dessa região enxertada e da necessidade de uma superfície que aumente o contato osso-metal, como é o caso desses implantes.

   O uso de enxertos ósseos de ilíaco em maxilas atróficas tem sido uma boa opção e a osteointegração tem sido demonstrada em estudos de longo prazo, desde que haja um planejamento adequado do caso e escolha dos implantes e do tipo de próteses mais favoráveis nesses casos. Como a atrofia era muito extensa e o enxerto aumentou a maxila horizontalmente, mas praticamente não o fez em altura, a escolha de infra e supraestruturas contendo os dentes pareceu ser uma boa escolha, pois seu objetivo foi exatamente o de suprir essa distância, muito longa, entre os maxilares e proteger os implantes através da ferulização dos mesmos.


   Um outro aspecto relevante a ser considerado é sobre as alterações morfológicas e funcionais que ocorreram no esqueleto facial da paciente, pois o fato dela permanecer muitos anos com próteses precárias provocou mudanças estruturais e estéticas que incluiram a própria articulação temporomandibular. O uso de provisórios foi fundamental para uma reabilitação postural e neuromuscular progressiva (SIQUEIRA., 1999).

    HARALDSON ( 1983) observou, em um estudo eletromiográfico, que a atividade muscular de pacientes com próteses sobre implantes seguia o mesmo padrão durante o ciclo da mastigação, enquanto em indivíduos normais a atividade muscular diminuía no final do ciclo, sugerindo uma diferença nos mecanismos do feedback neurofisiológico. Esse autor lembra que a medicina física reabilita pacientes que sofreram traumas ortopédicos e sugere o uso de um programa de treinamento para o indivíduo recentemente implantado, principalmente se usou próteses totais por muito tempo. Além disso MIRSH ( 1995) lembra a importância de uma adaptação e uma remodelação óssea gradual, a qual chamou de cargas progressivas. Portanto, à idéia de cargas progressivas para auxiliar na remodelação óssea, adicione-se a reabilitação neuromuscular do paciente e uma adaptação lenta e gradual no seu padrão de atividade motora, determinada pela sensibilidade oclusal. Neste sentido o uso da prótese provisória aliada a um programa de alimentação vai permitindo essa lenta adaptação, além de favorecer ajustes funcionais e estéticos, facilitando a manipulação mandibular dos pacientes. Por essa razão, como no caso clínico apresentado, é importante o uso de próteses provisórias logo após a reabertura.


    A confecção de próteses extensas na maxila e na mandíbula exige trabalho e demanda tempo. A necessidade de uma boa
adaptação dos componentes protéticos é indispensável. Isso exije componentes precisos e um trabalho laboratorial correto. Quando há uma condução clínica bem elaborada pelo cirurgião- dentista e, de preferência, precedida por um planejamento adequado entre os vários membros da equipe, o resultado final será bem próximo àquele esperado.

    Em conclusão, este caso demonstra claramente o estágio avançado das reabilitações bucais neste momento da realidade brasileira e os benefícios aos pacientes que sofreram perdas consideráveis de seus maxilares por desuso ou atrofia decorrente do tempo ou de uso de próteses instáveis. A boa formação dos profissionais brasileiros, cirurgiões bucais, protesistas, clínicos, implantodontistas e técnicos de prótese dentária, entre outros, é digno de orgulho. Além disso a produção de implantes nacionais de excelente qualidade, demonstrada nos últimos 10 anos em trabalhos clínicos e experimentais, favorece e permite que trabalhos extensos como o apresentado estejam mais dentro da realidade econômica nacional, sem prejudicar a qualidade das reabilitações e sem adulterar os princípios éticos que nos regem.

Referências Bibliográficas

  1. Branemark P-I, Hansson BO, Adell R, Breine U, Lindstrõm J, Hallén & bhman A. Osseointegrated implants in the treatment of the edentulous jaw. Experience from a 10- year period. Scand. J. Plast. Reconst. Surg.1977 , 11 ,Suppl. 16.
  2. Velasco Dias P, Salomão M, Siqueira JTT & Ferreira LCP. Implantes osteointegrados na reabilitação de pacientes com sequelas faciais. Considerações sobre uma amostra clínica. Rev Bras Implant. Jan-Fev: 21-25, 1997.
  3. Smith E and Zarb GA. Criteria for success of osseointegrated endosseous implants. J Prosth Dent, 62:567-580, 1989.
  4. Siqueira JTT, Velasco Dias P, Salomão M, San Juan M e Lima PSR. Estudo multicêntrico retrospectivo de osteoiritegração com implantes cilíndricos, corpo com anéis e súperfície rugosa por tratamento mecânico-químico. Fase I -A valiação da osteointegração primária (ao término da fase de cicatrização). Rev ABO Nac, VoI 5,No.3:164-170, 1997.
  5. Breine U & Branemark P-I. Reconstruction of alveolar jaw bone. An experimental and ciinical study of immediate and preformed autologous bone grafts in combination with osseointegrated implants. Scand.J.Plast. Reconstr. Surg., 1980; 14; 23-40.
  6. Albrektsson T, Branemark P-I, Hansson J-A & Lindstrom J. Osseointegrated titanium implants. Requiriments for ensuring a long-Iasting, direct bone-to-implant anchorage in man. Acta Orthop. Scand. 1981, 52: 155-170.
  7. Salomão M, Velasco Dias P, D` Alleva PSR e Siqueira JTT. A reabilitação com implantes osteointegrados: do planejamento à proservação. Considerações sobre uma amostra clínica. Ver Bras Implant, Mai/Jun: 1119, 1997.
  8. Siqueira JTT. Disfunções temporomandibulares. IN: Dor Orofacial/ATM -Bases para o diagnóstico
    clínico. Eds.: JTT de Siqueira e LH Ching, Edta. Maio, Curitiba, 1999. P 209-233.
  9. Haraldson T. Comparisons of chewing patterns in patients with bridges supported on osseointegrated implants and subjects with natural dentitions. Act.a Odontol. Scand. 41 :203-208, 1983.
  10. Mish CE. Opciones protésicas en implandologia. In: Implantologia Contemporánea. Edt. Carl E. Mish. I a. edição, Mosby/Doyma Libros, Espanha, 1995. Pgs.43-50.