Overdentures:
aspectos biomecânicos de diferentes tipos de conexões
utilizadas para overdenture
(Prótese Total- Implanto Relida e
Muco-suportada)
Autores :
Acadêmico: LuizAugusto Duarte Meirelles*
Acadêmico: Marcos Paulo Rodrigues Montenegro**
Acadêmica: Layza Ramos Barreto***
Orientadores :
Prof. Dr. José Henrique Cavalcanti Lima ****
Prof. Dr. Carlos Nelson Elias*****
RESUMO
Este
trabalho tem por objetivo avaliar retentores de próteses retidas em implantes
e suportadas por mucosa alveolar (Overdenture) dos tipos barra-clip e O-ring.
Foram realizados ensaios mecânicos com o objetivo de se avaliar a capacidade
retentiva de cada sistema no que diz respeito às forças de tração necessárias
para remoção da Overdenture com a utilização de dois implantes endoósseos nas
regiões de canino inferior. Concluiu-se que o sistema barra-clip possui maior
capacidade de retenção que o O-ring.
SUMMARY
The objective of this study was to compare different
abutrnents used in implant-retained overdentures. Mechanical tests were made
to evaluate retention capacity of the two systems : Bar-Clip and O'Ring. Tension
tests were made in groups simulating overdentures retained by two endosseous
implants in canine region. Results show that Bar-Clip has more retention capacity
than O'Ring system.
PALAVRAS CHAVES
Maxila edêntula, overdenture, implantes dentários
KEY WORDS:
Overdenture, Overlay -Jaw, edentolous -Dental implants
INTRODUÇÃO
A principal queixa do paciente edentado refere-se
à instabilidade da prótese total inferior, resultado do processo fisiológico
de reabsorção do rebordo alveolar após a perda dos elementos dentários. A má
adaptação da prótese leva a uma diminuição na força de mastigação, problemas
de dicção e medo de perder a prótese, interferindo até mesmo no seu convívio
social. Em casos extremos de perda óssea alveolar, uma das alternativas para
devolver a retenção é a overdenture (prótese implanto retida muco suportada).
Dentre as opções para instalação de implantes com finalidade retentiva, a utilização
de dois implantes ósseo-integráveis nas regiões de canino (43 e 33), trará estabilidade,
proporcionando conforto e função desta prótese, além de ser uma alternativa
mais econômica para o paciente.
O presente trabalho tem por objetivo
avaliar a viabilidade do emprego da overdenture retida por dois implantes, que
por ser relativamente de menor custo, está de acordo com a realidade sócio-econômica
brasileira.
REVISÃO DE LITERATURA
Jamb em 1986, observou que com
a retenção e a estabilidade conseguida pela OVERDENTURE implanto retida muco
suportada, tornava o paciente apto a reproduzir a oclusão cêntrica determinada,
uma vez que a dentadura convencional inferior apresenta uma mobilidade de até
10mm, o que torna praticamente impossível o controle dos contatos oclusais e
das forças mastigatórias.
Nina von Wowern em 1992, observou
que com a melhoria do processo de formação óssea, poder-se-ia prevenir a osteoporose
mandibular.
A continua reabsorção óssea após a
extração dentária pode eventualmente prejudicar a utilização da área para sediar
próteses convencionais e como consequência diminuir a estabilidade e retenção
da prótese total. A reabsorção alveolar tende a afetar mais a mandibula que
a maxila, com menor distribuição favorável das forças, como citado por Tallgren
em 1972.
Em 1991, Naert atesta que pacientes
que usaram a prótese por seis meses tiveram uma perda média de 0,5 mm de osso
marginal, enquanto que os pacientes que usaram as overdentures por um ano tiveram
uma perda óssea de 0,75 mm. Durante o segundo ano de uso uma pequena ou nula
alteração na altura do osso marginal pode ser detectada. No terceiro ano, houve
ganho, em média de O, 12mm de osso marginal. Naert em 1994, conclui que há melhoria
no processo de formação óssea.
RB Jonhs, em 1992 obteve índices menores
de reabsorção no primeiro ano, com valores em média de 0,3mm na região mesial
e 0,2mm na distal dos implantes.
Lawrence A., 1994 cita a importância da aplicação das
forças na direção longitudinal dos implantes. Com a establidade da OVERDENTURE
esta fica praticamente imobilizada (isso não acontece com a dentadura convencional
inferior) evitando a abrasão dos tecidos moles e a perda óssea acelerada que
são sintomáticas dos movimentos horizontais da prótese sobre forças laterais.
Engel e Weber, 1995 trataram com OVERDENTURE 10 pacientes
com desordens temporo mandibulares (DTM). Os pacientes com deslocamento do disco
articular e degeneração óssea articular, após três anos de tratamento apresentaram
melhoria no quadro de dor, aumento da mobilidade mandibular e decréscimo dos
sons articulares: Pacientes com dor parafuncional miogênica não apresentaram
melhoria desta condição.
Vários autores relataram a melhora na função mastigatória
dos pacientes edentados tratados com overdenture. Hoerrigter em 1995 dividiu
90 pacientes em três grupos: o primeiro grupo foi submetido a colocação de dois
implantes na região anterior da mandíbula, o segundo grupo foi tratado com cirurgia
pré- protética e o terceiro recebeu um novo par de próteses totais convencionais.
O objetivo era avaliar através de questionários, o grau de satisfação de cada
grupo, quanto a capacidade mastigatória. Através de várias perguntas feitas
aos pacientes, o autor conclui que o grupo tratado com dois implantes obteve
melhores resultados que o grupo submetido a cirurgia pré-protética. O grupo
que recebeu um novo par de prótese teve o menor grau de satisfação. Henzing
U. (1994) avaliou o padrão mastigatório e os movimentos bordejantes de 15 pacientes
que reclamavam da adaptação de suas próteses. As medições foram feitas antes
e depois da colocação de dois implantes na região anterior da mandibula. Os
movimentos mastigatórios tornaram-se mais firmes e regulares em todos os pacientes
com a colocação dos implantes utilizando a "Dolder-barr" como conector,
enquanto o trajeto de abertura e fechamento da boca aumentaram muito pouco.
Quanto aos movimentos bordejantes, todos ficaram mais amplos e houve aumento
na abertura da boca após a colocação dos implantes. Meriske-Stern (1992), avaliando
a distribuição da tensão transmitida aos dois implantes retendo a overdenture,
durante movimentos mastigatórios, conclui que o vetor solicitante predominante
é o vertical, estabelecendo um importante componente que favorece a sobrevida
da overdenture.
Fatores adicionais determinantes para a satisfação do
paciente inclui; a qualidade da dentadura, a relação paciente-dentista, experiência
prévia com o uso de dentaduras e bem estar psicológico do paciente. Do ponto
de vista do paciente a satisfação com a dentadura se relaciona com a estética,
retenção e função.
O sucesso clínico dessa modalidade de prótese foi comprovada
por estudos realizados em diferentes centros de pesquisa, destacando-se os trabalhos
de Enquist H. em 1988, de Naert em 1988 e o de Mericske em 1990.
MATERIAIS E MÉTODOS
Corpos de prova contendo dois Implantes Nobelpharma
empregados na região de caninos inferiores e distantes entre si de 20 mm foram
confeccionados em resina acrílica. Nestes implantes foram conectados dois tipos
de "abutment": O-ring e barra-clip. Em uma segunda resina, simulando
a overdenture, foram inseridas as partes fêmeas dos "abutment". Após
o encaixe das overdentures nos "abutments", fez-se a avaliação da
capacidade de retenção do sistema "attachment" em uma máquina de ensaio
de tração EMIC, modelo DL10000, célula de carga de 500N e velocidade entre 0,5
e 1 mm/minuto. Conforme mostra-se na Figura 1. Foram analisados sistemas O-ring
de dois fabricantes e barra-clip de Ni-Cr de um fabricante.
Em um primeiro grupo de corpos de prova, na superfície
superior da resina contendo a parte fêmea, foram colocados três dispositivos
para fixação das garras em três diferentes eixos para simular a remoção da overdenture
nas direções mediana, anterior e posterior. Em um segundo grupo de espécimens
fez-se a fixação das garras da máquina de ensaio de tração diretamente sobre
a resina contendo a fêmea. Foram realizados cinco ensaios em cada condição de
montagem.
Fig. 1 - Montagem dos
ensaios para medida da capacidade de retenção dos sistemas.
1 - Clip do Barra-Clip
2 - O´ring
3 - Anéis utilizados para ensaios mecânicos - anterior, médio
e posterior

Fig. 2 - Visão
frontal do sistema O-ring
Fig. 3 - Visão frontal do sistema Barra-Clip
Fig. 4 - Visão superior dos Sistemas Barra-Clip e O´ring
RESULTADOS E ANÁLISE
Mostra-se nas Tabelas 1 e 2 os resultados obtidos neste
trabalho nos ensaios de fixação das garras nas diferentes direções de tração
em relação ao eixo dentário e as forças para remoção dos sistemas, respectivamente.
Tabela
I: Força necessária para desconectar o sistema barra-clip.
|
Direção
da Força
|
Média
(N)
|
Desvio
Padrão (N)
|
|
Mediana
|
32,8
|
3,0
|
|
Posterior
|
34,8
|
0,4
|
|
Anterior
|
36,2
|
0,2
|
Tabela
2: Força necessária para desconectar os diferentes sistemas
|
Sistema
Attachment
|
Média
(N)
|
Desvio
Padrão (N)
|
|
Barra-Clip
|
49,2
|
2,7
|
|
O-ring
fabricante 1
|
26,1
|
2,2
|
|
O-ring
fabricante 2
|
28,1
|
1,3
|
Pode-se observar na Tabela 1 que existe uma pequena variação
da força para desconectar a overdenture em relação aos eixos anterior, posterior
e mediano.
Comparando-se a força necessária para desconectar a overdenture
do sistema barra-clip na direção mediana (Tabela 1) com o resultado da força
para desconectar o sistema barra-clip com a fixação das garras diretamente sobre
o corpo de prova (Tabela 2), pode-se observar que no segundo caso a força é
maior. Este resultado indica que nos ensaios realizados com os corpos de prova
do primeiro grupo, há uma inclinação da força na remoção da overdenture.
As análises estatísticas t-teste e ANOVA dos resultados
dos ensaios do segundo grupo, indicaram que existe diferença estatisticamente
significativa entre a capacidade de retenção entre os sistemas barra-clip e
O-ring, não havendo diferença estatisticamente significativa entre os sistemas
O-ring dos fabricantes analisados. O comportamento dos sistemas O-ring e barra-clip
pode ser associado à área de contato entre as parte macho e fêmea do abutment,
quanto maior a área de retenção maior a força para remoção.
DISCUSSÃO
Foi
verificado que na remoção do sistema o'ring, dos dois fabricantes, apresentava
sempre a liberação primeiramente de um lado, para depois o outro lado, quando
tracionado o corpo de prova para frente e para cima em relação ao eixo de inserção
do mesmo. Porém quando este corpo de prova foi submetido a uma tração direta,
observou-se a sua remoção simultânea. Na literatura não há citação sobre as
variantes citadas do sistema o'ring.
A diferença entre as duas metodologias quanto a remoção do
corpo de prova acoplado ao sistema o'ring, pode ser em razão do não alinhamento
das peças que compõe o sistema implante-abtument-prótese. Outra variante que
deve ser levada em consideração é a caracterização da capacidade elástica e
de retenção do material utilizado para confecção das anilhas que se localizam
no interior da conecção fêmea do o'ring. Levados em consideração o comportamento
dos sistemas barra-clip e o'ring, no que diz respeito a área de contato entre
as partes (macho e fêmea) da prótese, quanto maior a área de retenção, maior
a força para remoção. O sistema barra-clip apresenta maior área de contato entre
macho-fêmea.
Na tabela 3 são apresentados os resultados obtidos por Naert
e Petropoulos.
Tabela 3: Força de desconecção obtidas
por Naert e Petropoulos.
|
Forca
Média (N)
|
||
|
NAERT
|
PETROPOULOS
|
|
|
BARRA-CLIP
|
16,0
a 20,0
|
21,0
|
|
O-RING
|
6,0
a 10,0
|
-
|
|
MAGNÉTICO
|
1,0
a 5,0
|
1,0
|
|
ERA
|
-
|
7,0
|
|
ANCORA
|
-
|
6,0
|
|
BOLA
|
-
|
2,0
|
Pode-se
observar na tabela 3 que existe diferença significativa entre os resultados
obtidos por Naert e Petropoulos, principalmente os resultados com emprego de
sistema magnético, que apresentaram diferença de 600%. Os valores das forças
de remoção encontrados no presente trabalho foram superiores aos da literatura.
Este comportamento pode ser associado às condições diferentes dos ensaios.
As intensidades das forças medidas para a remoção dos
sistemas de retenção para próteses implanto-retidas muco-suportadas não devem
ser consideradas como valores absolutos para emprego clínico. Os valores obtidos
nos ensaios por serem diferentes das condições do meio bucal devem ser considerados
como comparativos.
IMPLICAÇÕES CLÍNICAS
Dados da literatura e a experiência profissional, indicam
que o índice de insucesso neste tipo de procedimento é baixo. No entanto, deve-se
fazer uma cuidadosa seleção entre os tipos de sistemas retentores, devendo sempre
se considerar as carências do paciente e a experiência clínica do profissional.
O sistema barra-clip é indicado quando:
Há casos de crista óssea severamente reabsorvida que necessita de alto degrau de retenção e rápido período de alívio (Petropoulos, 1997), para não forçar o implante quando da retirada da prótese.
Para prevenir forças horizontais que são danosas aos implantes. É preferível este sistema aos sistemas não esplintados, uma vez que o CLIP abraça a BARRA impedindo que o sistema rotacione.
Permitir uma função incisal mais imediata que o O-RING, que é mais amortecedor .
O sistema o'ring é indicado quando:
Há larga distância entre os implantes
Quando o arranjo dos implantes na arcada for diagonal
Quando o paciente tiver dificuldade com higiene oral.
Deve-se
ressaltar que o sistema O-RING tem menor custo laboratorial que o BARRA-CLIP.
CONCLUSÃO
Os ensaios in-vitro indicaram a superioridade das
forças para remoção do sistema barra-clipp em relação ao sistema O'ring.
Os dois sistemas de retenção são capazes de equilibrar
uma prátese tipo Overdenture retida por apenas dois implantes osseointegráveis,
devolvendo a função mastigatária e estética ao paciente, melhorando o seu convívio
social a um custo relativamente baixo.
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*Academlco do oltavo penríodo de Odontologia
da Faculdade de odontologia da UFRJ
** Acadêmico do oitavo periodo de Odontologia da Faculdade de Odontologia da
UFRJ
*** Acadêmica do quinto periodo da Faculdade de Odontologia da UnigranRio
**** Major Dentista do Quadro de Saúde do Exército; Chefe da Clinica de Implantodontia
da Odontoclinica Central do Exercito; Prof. do Instituto Brasileiro de Implantodontia
***** Prof. Adjunto da Faculdade de Metalurgia da Universidade Federal Fluminense;
Prof. do Instituto Militar de Engenharia, Pesquisador do CNPq em Materiais;
Prof Convidado do Instituto Brasileiro de Implantodontia