Osteotomia
segmentar posterior da maxiIa
Revisão da literatura e relato de um caso
Ribeiro,
Leonardo Guerra Maio *
Manso, Marcelo Corrêa**
Guimarães, Petrônio Pereira***
Resumo
Os autores fazem uma revisão da literatura Internacional
sobre o procedimento cirúrgico das osteotomias segmentares posteriores da Maxila,
abordando seu enfoque histórico, citando as principais técnicas utilizadas.
Relatam um caso clínico, em que foram feitas algumas
modificações na técnica original de "KUFNER", pelos autores.
Unitermos
Osteotomia Segmentar Posterior da Maxila, Osteotomia Posterior
da Maxila, Cirurgia pré-protética , Osteotomia , Maxila, Implante osseointegrado
, Deformidade Dento Facial.
Summary
The authors review the literature about posterior Maxillary
osteotomies, including their historic aspects as well as the most important
techniques currently used.
In a case report , the authors describe some variations made
in the original Kufner 's osteotomy design.
Key Words
Posterior Maxillary segmental osteotomy , Posterior Maxillary
Osteotomy , Ortognatic Surgery, Pre-Prosthetic Surgery , Osteotomy , Maxilla
, Osseointegrated Implants, Dento Facial Deformitie.
INTRODUÇÃO
A osteotomia segmentar posterior da maxila tem sido um recurso
de grande valia na correção de anomalias inter-oclusais de diversas etiologias.
Apesar da maioria dos relatos na literatura abordarem esta modalidade cirúrgica
para tratamento de mordida aberta anterior, ultimamente um importante enfoque
tem sido dado para a correção das extrusões severas do maciço maxilar posterior
com ou sem elementos dentários, antagonizados por edentulismos póstero-inferiores
(extremo livre), com o objetivo da viabilização protética do arco inferior e/ou
superior com a
utilização de próteses removíveis ou através dos recursos da osseointegração.
Desde que KUFNER (1) publicou pela primeira vez em 1970
seu valoroso trabalho com estudos clínicos longitudinais de dez anos, muitos
avanços têm ocorrido. Neste trabalho,o referido autor apresentou uma variação
de um estágio, da abordagem original de SCHUCHARDT (2) para a osteotomia segmentar
posterior que preconizava, até então, um procedimento com dois estágios para
correção de mordidas abertas anteriores.
O objetivo deste trabalho é relatar as principais técnicas
existentes para este procedimento cirúrgico,assim como revisar a anatomia cirúrgica
da região maxilar posterior e apresentar algumas modificações à técnica original
de KUFNER feitas pelos autores, com o objetivo de restabelecimento do espaço
protético posterior, devido à extrusão do complexo "dente osso". O
que será mostrado no caso relatado.
REVISÃO DA LITERATURA
SCHUCHARDT(2), em 1959 relatou suas experiências
com osteotomia segmentar posterior de maxila onde preconizava sua realização
em dois estágios cirúrgicos e primariamente, apenas para correção de mordidas
abertas anteriores. Sua grande indicação, relatava o autor,estava no fato de
que a resolução destes fatos anteriormente eram realizados com abordagem ao
segmento anterior, o que levava a uma grande proeminência do rebordo alveolar
e consequentemente uma excessiva exposição gengival e dentária.
KUFNER(1) em 1970 publicuu o aperfeiçoamento da técnica
de SCHUCHARDT(2), sendo realizada em apenas um estágio cirúrgico onde apresentou
resultados observados por dez anos.
Em 1971, HARGIS(3) apresentou suas experiências com esta modalidade
cirúrgica, também realizada em um estágio, sendo discutida pelo mesmo, como
um procedimento desenvolvido por PERKO em Zurich.
Também em 1971 BELL(4) descreveu os princípios biológicos
envolvidos em diferentes tipos de retalhos utilizados, com relação à vascularização
e reparação óssea nos procedimentos de um estágio. Sua pesquisa, realizada em
macacos Rhesus machos, apresentou como resultado uma perfeita reogarnização
dos fragmentos, sendo histologicamente compatíveis com os segmentos anteriores.
Utilizou acesso incisional vertical entre canino e primeiro pré-molar e horizontal
de canino à tuberosidade em fundo de vestíbulo, assim como incisão em "Y"
no palato. As osteotomias seguiram os mesmos padrões. Os segmentos foram fixos
com splints de acrílico pré-formado, ligados aos dentes anteriores e posteriores
por fio de aço. Os segmentos alveolares apresentaram-se móveis com uma semana
de pós-operatório,discretamente móveis após três semanas e clinicamente integrados
após seis semanas. Os dentes se mantiveram com suas vitalidades preservadas
e os dentes posteriores estavam vascularizados por vasos dento-alveolares intra-ósseos
e oriundos dos plexos periodontais.
WEST & EPKER(5) em 1972 descreveram 12 casos operados,
onde discutiram parâmetros de avaliação quanto ao tipo de técnica, indicações,
complicações e resultados pós-operatórios. Nesta publicação os dois autores
descrevem uma modificação na técnica original de KUFNER com levantamento do
retalho muco periosteal completo da porção lateral da maxila e preconizavam
bloqueio maxilo-mandibular por quatro a seis semanas no pós operatório.
MARTIS(6) em 1980 compara duas técnicas de abordagens
diferentes, sendo uma de sua autoria, onde substituia incisão original de KUFNER(fundo
de vestíbulo) por duas incisões verticais, uma em região de canino e outra em
região de molar, tunelizando-as. Acrescentou ainda uma abordagem palatina que,segundo
ele, minimiza o tempo de cirurgia e preserva injúrias ao seio maxilar.
STULLER(7) et alli, em 1983 sugerem a técnica de osteotomia
de LE FORT I com impactação posterior da maxila para o tratamento das extrusões
severas maxilares posteriores (complexo osso-dente).
Em uma avaliação das considerações vasculares nas cirurgias
ortognáticas, EPKER(8) enfatiza a necessidade de manutenção do pedículo muco-periosteal
palatino para suprimento do fragmento ósseo nas osteotomias segmentares posteriores.
Ressalta que, quando o acesso bucal é utilizado através de uma incisão horizontal
em fundo de vestíbulo, o suprimento sanguineo é exclusivamente dependente deste
pedículo, de tal forma que em casos de grandes mobilizações do fragmento, o
autor sugere que façamos um descolamento de alivio via uma incisão de alivio
do lado contralateral.
REVlSÃO DA ANATOMIA CIRÚRGICA
O comprometimento vascular da maxila após esta modalidade
cirúrgica, é sem dúvida a maior preocupação do cirurgião. EPKER(8) relembra
o quanto é enfatizado pela literatura o espectro amplo de sequelas decorrente
da redução do suprimento sanguíneo. Cita o autor, que algumas dessas, podem
ser bastante evidentes clinicamente, como a perda do segmento ósseo, ou de maneira
sutíl como a simples deficiência na união nos fragmentos ósseos, apesar deste
fato nem sempre ser associado a comprometimentos vasculares.
De acordo com o trabalho de MEHER(9) e de
RICBOURG (10), o suprimento sanguíneo básico da maxila ocorre da seguinte forma:
O suprimento sanguíneo primário da porção alveolar vestibular, periodonto e dentes é proveniente dos vasos alveolares superiores posteriores.
O suprimento sanguíneo primário do palato e alvéolos palatinos é proveniente dos vasos palatinos maiores.
A gengiva inserida buco labial e a mucosa livre adjacente são primariamente supridas pelo osso subjacente e não o contrário.
Muito
importante é termos noção da exata localização de estruturas anatômicas fundamentais
para a realização desta técnica cirúrgica.
Superior à junção pterigomaxilar está a
fossa pterigopalatina, delimitada anteriormente pela tuberosidade da maxila
onde se observa em seu limite lateral a presença dos forâmes dos canais alveolares
pástero superiores, posteriormente pelo processo pterigóide do osso esfenóide,
onde se observa a presença do forâme redondo, canal pterigoídeo e canal ptérigo-palatino,
terminando os dois primeiros no endocrânio e o último no nasofaringe.
Medialmente notamos a lâmina perpendicular
do osso palatino, que no seu extremo superior forma o forâme esfenopalatino,
via de comunicação com a cavidade do nariz e lateralmente apresenta uma amplitude
variável que a comunica com a fossa infra temporal.
O principal acidente anatômico quando consideramos
a separação final do fragmento maxilar na sua jução com o platô pterigóide é
a artéria maxilar, ramo da carótida externa.
TIMOTHI & RAYMOND(11) estudaram detalhadamente
esta artéria em 16 cadáveres adultos,a fim de estabelecer a sua relação na fossa
ptérigo palatina com a junção ptérigo maxilar.
Assim os autores encontraram:
Uma distância média de 25mm entre o ponto mais inferior do platô e a posição mais inferior da artéria maxilar (desvio standard de 1,49mm)
Uma altura média da sutura ptérigo maxilar de 14,6mm (variando de 11 a 18mm)
Um diâmetro médio da artéria no momento em que ela penetra na fossa ptérigo palatina (antes de emitir qualquer colateral ) de 2,63mm.
Lembram
ainda que a extensão da parte ativa dos osteótomos variam entre 10 e 15mm, dependendo
do fabricante, nos dando uma margem de segurança de 10mm durante a separação
final do fragmento. O osteótomo nesta região deve ser angulado posterior
e inferiormente à partir da crista zigomático-maxilar. A injuria desta artéria
pode facilmente ser evitada com o posicionamrnto adequado de um afastador tecidual.
RELATO DE UM CASO E DESCRIÇÃO DA TÉCNICA CIRÚRGICA
A paciente V.S.A. de 37 anos foi encaminhada ao serviço
de Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial do Hospital Central da Aeronáutica
com indicação de realização de cirurgia pré-protética em região de maxila posterior
bilateral com o objetivo de recuperação de espaço protético.
Aos exames clínico e radiográfico observamos perda precoce
de vários elementos dentários posteriores dos arcos maxilar e mandibular (conforme
figura 1). Observamos ainda extrusão do complexo "dente osso" na região
de segundo molar superior esquerdo com uma completa ausência de espaço protético
de ambos os lados.
Com o objetivo de recuperação de espaço protético sem
comprometimento dos elementos dentários e estruturas ósseas correspondentes,
optamos pela utilização da técnica cirúrgica de osteotomia segmentar posterior
de maxila bilateral, visto que também fazia parte deste planejamento a reabilitação
das áreas desdentadas com a utilização de implantes osseointegrados. (Fig.1a
,1b e 1c)
SET-UP CIRÚRGICO
Devido às mudanças esperadas na dimensão vertical
pelas cirurgias segmentares posteriores,os modelos de estudo são obrigatoriamente
montados em articulador. Os resultados pós-operatórios previstos para as relações
oclusais verticais anteriores e relação dento-labial ditam as mudanças que precisarão
ser implementadas posteriormente.
Os segmentos maxilares alveolares posteriores são seccionados
e reposicionados, nos modelos de estudo, nas posições desejadas verticalmente
e/ou horizontalmente. Para tal é necessário que já tenhamos os valores de referência
da altura dos ápices dentários em relação a uma cúspide eleita e façamos sua
marcação nos moldes de gesso (a osteotomia supra-apical deve distar um mínimo
4mm do ápice dentário mais alto).Traçamos então, linhas de referência fixa em
locais onde não seccionaremos o gesso para que possamos ter uma mensuração fidedigna
do real deslocamento do fragmento osteotomizado. O delocamento deste fragmento
é quantificado de tal forma que no momento da cirurgia a quantidade apropriada
de osso seja removida e o fragmento possa ser reposicionado de maneira ideal,corrigindo
de forma simples e eficaz os aspectos funcionais e estéticos.(figura2 )
TÉCNICA CIRÚRGICA
O procedimento cirúrgico é realizado inteiramente
pelo aspecto bucal (28,29) Uma incisão horizontal é realizada bilateralmente
no vestíbulo maxilar, entre canino e segundo molar. Um túnel vertical é feito
entre o primeiro pré-molar e o canino ou, se for o caso, entre o canino e o
incisivo lateral pelo deslocamento mucoperiosteal, através do qual é realizada
uma osteotomia vertical no osso alveolar inter radicular. A fim de proteger
e evitar injúrias ao mucoperiósteo, é preconizado a colocação, pelo cirurgião,
do seu dedo indicador na porção palatina, para identificar o momento da osteotomia
feita com a utilização de um cinzel fino. O mucoperiósteo logo acima da incisão
horizontal é desenserido e a parede lateral da maxila é visualizada até 1 cm
acima dos ápices dentários. A parede posterior da tuberosidade maxilar também
é exposta através de tunelização do mucoperiósteo. Uma osteotomia horizontal
é então feita nas paredes lateral e posterior do seio maxilar e tuberosidade
respectivamente, com suas dimensões verticais correspondendo a extensão do reposicionamento
desejado. A quantidade de osso a ser removida destas paredes será igual ao valor
em milímetros do reposicionamento superior planejado no set-up cirúrgico.
Assim, após a remoção óssea da parede lateral da maxila
e o seccionamento da parede posterior do seio com um osteótomo curvo, o segmento
dento alveolar é separado do platô pterigóide. Dobra-se este fragmento palatalmente
afim de que a parede medial do seio seja amplamente exposta para que possa ser
osteotomizada com um cinzel curvo e delicado, unindo a osteotomia vertical (interproximal)
até aquela na parede posterior do seio (figura 3). O segmento dento alveolar
livre e móvel, é então reposicionado até a relação oclusal desejada e fixado
através da utilização de mini-placas e mini-parafusos de titânio. Finalmente
procede-se com o reposicionamento do retalho mucoperiostal, suturando-o. (Fig.
3a e 3b).

Fig. 1a e 1b - Vista lateral direita
e esquerda, respectivamente, em oclusão cêntrica, evidenciando
a
ausência de espaço protético, impossibilitando a reabilitação
protética em ambos os arcos.

Fig. 1c - Exame rediográfico
panorâmico das arcadas, onde observamos extruturas anatômicas como:
Soalho de Seio Maxilar, nível dos ápices dentários e principalmente
o capital ósseo maxilar que viabilisa
a utilização de implantes osseointegrados posteriormente na reabilitação
protética.
Fig. 2a e 2b - Planejamento cirúrgico
em modelos de gesso, nos possibilitando quantificar o ganho de
espaço protético interoclusal.

Fig. 3a - A osteotomia maxilar
vertical e horizontal (acima dos ápices radiculares)
Fig. 3b - O fragmento ósseo mobilizado após a osteotomia medial
do seio Maxilar e a
disjunção da Apófise Pterigóide do osso Esfenóide

Fig. 4a e 4b - Os fragmentos osteotomizados
(direito e esquerdo), reposicionados 06 mm acima e
imobilizados através de fixação rígida por meio
de mini placas e parafusos de titânio.

Fig. 5a - Aspecto clínico
imediato, evidenciando o ganho de espaço protético bilateralmente.
Fig. 5b - Follow-up de 11 meses após a cirurgia, do lado esquerdo.
DISCUSSÃO
Dentre as complicações pós-operatórias possíveis,
podemos notar a perda de vitalidade dos elementos dentários devido a osteotomia
horizontal supra apical. Parece razoável utilzarmos um limite apical de pelo
menos 6mm de distância ao traço de osteotomia.
Com o advento da fixação rígida, através de placas e parafusos
de titânio, o bloqueio maxilo-mandibular pôde ser descartado assim como a utilização
de placas oclusais ( Fig. 4 ). Com isso podemos melhorar as condições pós-operatórias
e um retorno às atividades diárias do paciente num curto espaço de tempo (em
torno de 7dias).
Com relação à medicação pós-operatória, preconizamos o uso
de antibiótico profilático acompanhado de terapia antinflamatória.. Associa-se
também descongestionantes nasais. (Fig. 4a e 4b)
CONCLUSÃO
Apesar de ainda pouco descrita na literatura a osteotomia
segmentar posterior é uma terapia cirúrgica segura e de grande valia
para muitos pacientes. O emprego desta técnica para restabelecimento do espaço
protético nos casos de extrusão do maciço ósseo e dentário da região posterior
da maxila nos edentulismos póstero-inferiores é sem dúvida um procedimento viável
(Fig.5), pois sua grande indicação esta no fato de preservar estruturas dentárias
e, no caso de edentulismos, preservar estrutura óssea em altura para posterior
emprego de implantes osseointegrados. (Fig.5a e 5b)
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*
Chefe da Subseção de Cirurgia Buco-Maxilo-Facial do Hospital Central da Aeronáutica.
Professor Assistente do Curso de Especialização em Cirurgia e Traumatologia
Buco-Maxilo-Facial da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
** Professor Titular e Diretor Clínico do Instituto Brasileiro de Implantodontia
- Especialista em Cirurgia Maxilo-Facial.
*** Aluno do Curso de Especialização em Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial
da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.