Obtencão de matriz mineral de osso bovino
e a comprovação de sua biocompatibilidade

                                             

RESUMO

        A estrutura óssea bovina, tanto na condição de tecido cortical como medular, viabiliza através de processo termo-químico a obtenção de material mineral rico em cálcio e fósforo com características funcionais
plenamente adequadas para sua aplicação como enxerto reabsorvível e condutor para reparações de defeitos ósseos. A implantação de cilindros deste material em tíbia de coelho com posterior análise histológica por microscopia de luz, eletrônica e fluorescência, comprovam a integração biocompatível com a matriz óssea original e o estímulo condutor na neoformação tecidual rico em atividade celular para a reparação óssea do leito receptor
              
INTRODUÇÃO

        Desde a década de setenta, composições cerâmicas à base de cálcio e fósforo tem sido extensivamente estudadas e utilizadas como materiais para a inclusão permanente em estruturas ósseas defeituosas ou anômalas. Na década de oitenta, dois reveiews foram realizados sobre as cerâmicas de cálcio e fósforo, seus possíveis processos de obtenção, suas condições termodinâmicas de equilíbrio em soluções e no estado sólido, e suas possíveis aplicações no processo de reconstrução do tecido ósseo. Partindo do princípio que todo e qualquer tecido ósseo natural contém compostos minerais comuns a todos os seres vivos, utilizou-se o tecido ósseo bovino como matéria prima para a obtenção de cilindros compostos puramente de matéria mineral para serem inseridos em tíbia de coelho.                               
        Após um período de oito semanas os animais foram sacrificados e o implante lnserido na tíbia do animal era removido com o tecido ósseo que o envolvia. Os pontos de inserção dos implantes eram próximos à articulação do joelho e com isso, foi obtido o material ósseo próximo à epífise proximal. Constatou-se a neoformação de tecido ósseo no interior do material implantado, e esse partia inicialmente da cortical da tíbia para o centro do enxerto, como pontes ósseas que se irradiavam. A análise, foi realizada em microscopia de luz, eletrônica e fluorescência, onde pôde-se observar os diferentes períodos de deposição óssea.


MATERIAIS e MÉTODOS

I. Processo de obtenção dos cilindros implantáveis.

        
Tecido ósseo da cabeça do fêmur bovino foi processado termoquimicamente com o único objetivo de se retirar todo e qualquer material orgânico existente, sem promover alterações da parte mineral natural. Os passos do processo estão representados no fluxograma da figura I (processo da empresa PRO-LINE Serviços e Produtos Odontológicos e Ortopédicos Ltda)

II. Análise química da estrutura de osso mineral bovino.
                 

        Análise clínica posterior ao processamento tem como finalidade verificar o teor de impurezas e contaminantes, oriundos do próprio processo ou da dieta alimentar do animal doador passível de influenciar no fenômeno da osseointegração e neoformação óssea do animal implantado. Esta análise foi obtida para a estrutura mineral bovina pelo método de fluorescência de raios-X.

III. Cristalinidade da estrutura do osso mineral bovino.

        
Quanto a cristalinidade da estrutura mineral do osso bovino, esta foi obtida por difração de raios-X, onde a tabela II apresenta os tamanhos dos cristalitos pelo método de Scherrer e fase pela ficha 9-432 da International Centre for Diffraction Data. Os dados foram obtidos comparativamente com aqueles da hidroxiapatita natural.

IV. Teste de citotoxicidade.

        
Foi feito o ensaio "in vitro" de citotoxicidade em células de ovário de hamster chinês, conforme procedimento adotado por Rogero et alli.

V. Experimento em animais.

        
Para a realização da fase experimental foram utilizados coelhos machos da Nova Zelândia com 3Kg de peso aproximado, onde foi exposta a região próxima à epífise proximal da tíbia e colocados os cilindros-enxertos em leitos de mesmo diâmetro. Após a implantação e durante o período de manutenção, os animais receberam injeções subcutâneas doscorantes na seguinte sequência: Alizarina, Calceína e Tetraciclina de acordo com Kõnig Jr.
        Após um tempo de cicatrização de 8 semanas os animais foram sacrificados por meio de dose excessiva de Hypnol e os implantes removidos juntamente como osso que os envolve, para preparação dos métodos histológicos.

VI. Preparação histológica.

        
As amostras de osso com os respectivos implantes foram fixadas em solução neutra de formalina a 4 %, sendo preparadas para a desidratação em etanol absoluto e água destilada. As amostras foram incluídas com Technovit VLC a 1% de peróxido de benzolla dissolvido em etanol, cortadas com disco de diamante, lixadas e polidas até se obter espessuras de 40 a 100mm. O método de coloração foi o de Escarlate de Biebrich (hematoxilina férrica, água destilada e ácido fosfomolíbdico fosfotúngstico).


RESULTADOS

I. Material de enxertia.

        
A estrutura do cilindro-enxerto é porosa (poros de 10 a 20um) e cavidades de osteoblastos (I a 2 um) originais do animal, doador, e face a isto, o material oferece características friáveis sob baixa carga mecânica. A análise química representativa dos cilindros porosos pode ser vista na tabela 1.

Tabela 1
Análise química do cilindro-enxerto
            

ELEMENTO
TEOR (%)
ELEMENTO
TEOR(%)
P2O5
40,1
TiO2
< 0,001
CaO
55,1
CuO
0,003
SiO2
0,039
SrO
0,097
MgO
0,69
SeO2
< 0,001
Fe2O3
0,018
V2O5
0,001
Al2O3
0,016
As2O3
< 0,001
K2O
0,006
HgO
0,001
Cl
0,013
MoO3
< 0,001
MnO
0,001
CdO
0,007
SO3
0,14
Cr2O3
0,012
NiO
0,004
Na2O
0,49
ZnO
0,017


       O grau de cristalinidade do osso mineral bovino apresenta-se menor do que o da hidroxiapatita natural, conforme pode ser observado na tabela II pelo tamanho dos cristalitos.


Tabela 2
Tamanho dos cristalitos do osso mineral bovino e
hidroxapatita natural

Amostra
Reflexão 002
Reflexão 310
Reflexão 213
Fase
Osso bovino
166 angstron
70 angstron
----------
Ca5(PO4)3(OH)
Ha natural
263 angstron
216 angstron
----------
Ca5(PO4)3(OH)

        O ensaio de citotoxicidade apresenta potencial citotóxico para a matriz mineral do osso bovino com IC
50 de 35, o que significa o extrato deste material diluído a 35% inibiu a formação de colônias em 50%. Isto é apresentado na figura 2.
       Após o processamento, a superfície da estrutura mineral do cilindro-enxerto, apresenta-se isenta de resíduos orgânicos, conforme mostrado por microscopia eletrônica de varredura nas figuras 3 e 4.

II. Análise histológica.

        Após o período de 8 semanas observou-se o cilindro-enxerto com tecido ósseo neoformado, de padrão similar ao osso compacto adjacente e exibindo uma conformação característica, com grande quantidade de células ósseas, que invadem o enxerto, conforme visto por microscopia de luz e apresentado na (figuras 5 e 6)
        Identifica-se a emissão de processos ósseos da cortical em direção ao centro do enxerto, ocorrendo uma indução a neoformação óssea na medular do coelho, que normalmente apresenta-se com grande quantidade de tecido adiposo. As figuras 7 e 8 confirmam a existência dos prolongamentos ósseos neoformados, que se iniciam em superfícies próximas à cortical.
        Por microscopia eletrônica de varredura (fig.9) observa-se de forma tridimensional o verificado por microscopia de luz, onde na região das pontes ósseas, formações contínuas se estabelecem entre a cortical e o enxerto. Isto também é visto por microscopia de fluorescência (fig, 10), onde a alizarina em cor verde esta depositada próximo à cortical, e novas deposições em amarelo (calceína), confirma que a neoformação inicia-se na cortical e é progressiva em direção ao enxerto. Nota-se ainda a calcificação intercalada e não sequencial dos anéis de formação da osteona.

DISCUSSÃO

       A composição química da matriz mineral do cilindro-enxerto conforme apresentada na tabela I, atende aos requisitos das normas ASTM F1088-87 e F1185-88 para implantes de â-fosfato tricálcico e hidroxiapatita respectivamente o que eliminaria qualquer correlação de possível grau de incompatibilidade biológica com o caráter químico da estrutura do material. Processo de obtenção do enxerto, composto só pela parte mineral da estrutura óssea original, podem ser obtidos na literatura como, por exemplo, o utilizado por O'KELLY comparando as propriedades mecânicas da hidroxiapatita porosa com a estrutura mineral trabeculada do osso bovino, onde mostrou que para a mesma densidade, este úitimo tem cerca de 40 a 50% a mais de resistência mecânica. O importante em cada processo de obtenção, é identificar o nível de contaminação mínimo possível que o mesmo irá deixar no produto final. Assim, quanto menos reagente químico e solventes de material orgânico forem utilizados na preparação do material em atenção, menor a possibilidade de não se atender as especificações normativas existentes para este tipo de produto. No presente caso, todos os reagentes foram cuidadosamente selecionados, minimizados e avaliados através da diferença em composição química, principalmente quanto a metais pesados, do osso serviu de matéria prima antes e depois de processado.

    
Fig. 3 - Superfície do cilindro-enxerto sob aumento de 50X
Fig. 4 - Superfície do cilindro-enxerto sob aumento de 50X
Fig. 5 - Superfície do cilindro-enxerto sob aumento de 50X

    
Fig. 6 - Superfície do cilindro-enxerto sob aumento de 50X
Fig. 7 - Superfície do cilindro-enxerto sob aumento de 50X
Fig. 8 - Superfície do cilindro-enxerto sob aumento de 50X

  
Fig. 9 - Superfície do cilindro-enxerto sob aumento de 50X
Fig. 10 - Superfície do cilindro-enxerto sob aumento de 50X


        A menor cristalinidade da estrutura mineral do osso bovino em relação à hidroxiapatita natural, a qual é sintetizada a partir do primeiro, está de acordo com o esperado, pois este processo termo-cerâmico de síntese objetiva transformar a hidroxiapatita defeituosa e fases outras existentes na estrutura em hidroxiapatita mais cristalina . Esta composição de diversas fases de sais de fósforo e cálcio menos estáveis que a hidroxiapatita sob a ação metabólica durante o processo de osteogênese, pode influenciar no tipo do neo-tecido a ser formado, o que está sendo estudado atualmente pelos autores.

O fato da estrutura mineral do cilindro-enxerto apresentar certo potencial cititóxico, decorrente possivelmente de percentual remanescente não detectado de orgaânicos na matriz mineral, ao mesmo tempo atender quimicamente as normas ASTN para implantes cerâmicos e demonstrar sua capacidade funcional como material ósteo-condutor, justifica porque não é possível especificar um único método de testes de biocompatibilidade e sim orientações conforme sugere a norma ASTM F748-9. BASLÉ et alli estudando a resposta celular do osso bovino mineralizado e hidroxiapatita, observou após implantação uma maior atividade de osteoblastos com consequente mais rápida formação óssea na superfície do osso bovino que na hidroxiapatita, considerando que isto não depende somente da composição química do implante, mas possivelmente também do tipo de tecido e espécie animal receptor, reforçando assim a validade da
norma ASTM F748-91.
       WATZSC utilizando o osso bovino desproteinado no preenchimento de seios paranasais de cães, verificou o estímulo à formação de um novo osso lamelar e aposição simultânea sobre os implantes. Já o estudo de CHANG, a formação e remodelação óssea foi influenciada pelo tipo de material implantado, pelas propriedades da superfície e também pelo local de implantação. Neste trabalho, constata-se que tais considerações se confirmam, onde a formação óssea mais abundante é aquela adjacente ao periósteo, ocorrendo uma migração em direção ao centro do material implantado.

 

CONCLUSÃO

       O enxerto mineral de origem bovina se apresenta como um material biocompatível com os tecidos sendo potencialmente capaz de conduzir o processo de neoformação óssea com um conteúdo celular característico assemelhando-se na sua estrutura acelular a um osso adulto normal.


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