Materiais
Substitutos e
Indutores Teciduais:
o que há de real ?
Layza
Ramos Barreto*
Prof. José Henrique Cavalcanti Lima**
Prof. Dr. Carlos Nelson Elias***
Resumo
O presente artigo faz uma revisão de literatura descrevendo
os tipos de procedimento para enxerto ósseo, bem como os materiais disponíveis
no mercado e sua forma de ação, objetivando trazer ao clínico geral meios para
escolher o tipo de procedimento bem como o tipo de material adequado para cada
situação.
Palavras-chave
Enxerto, biomaterial, osso..
Abstract
The article has a literature
review describing methods for bone fílling, as well as materiais that we use
nowadays. The aim is bring to the clinician ways to choose the most suitable
procedure or material for each situation.
Key Words
Biomaterial, bone filling, bone.
Introdução
Vários pesquisadores vem tentando
ao longo do tempo buscar materiais ou métodos que possam substituir ou induzir
a formação óssea em áreas acometidas por doença periodontal, periapical ou perda
do elemento dentário.
Os objetivos do tratamento para
aumento ósseo na implantodontia é a formação de osso para colocação de implantes
ou o tratamento de perda óssea por lesão peri-implantar.
Para obter resultados previsíveis
a longo prazo, a anatomia, quantidade e qualidáde do osso no sítio a ser instalado
o implante são fatores cruciais. (TINTI, BENFENATI & POLIZZI, 1996)
O presente artigo faz uma revisão
de literatura descrevendo os tipos de procedimento para enxerto ósseo, bem como
os materiais disponíveis no mercado e sua forma de ação, objetivando trazer
ao clínico geral meios para escolher o tipo de procedimento bem como o tipo
de material adequado para cada situação.
Revisão de Literatura:
O osso é composto organicamente por
colágeno tipo I e V, proteoglicanos e proteínas não colagênicas como osteonectina
e osteocalcina (atua diretamente na diferenciação de células mesenquimais indiferenciadas
para osteoblastos) e inorganicamente por fosfato de cálcio (85%), carbonato
de cálcio (10%) e fluoreto de cálcio e magnésio. (MARX & GARG, 1998)
As células ósseas possuem as funções
de formação, reabsorção e manutenção. As células osteoprogenitoras (mesenquimais
indiferenciadas) formam osteoblastos através de mitose que formam a matriz óssea.
Os osteócitos são osteoblastos submersos em matriz óssea, mantendo as atividades
metabólicas ósseas através de canalículos e os osteoclastos, formados pelos
monócitos, possuem a função de reabsorção óssea.
A estrutura macroscópica do osso é
formada por osso trabecular (ou esponjoso, ocupa um espaço substancial dentro
do tecido ósseo que constitui a cavidade do osso. As cavidades medulares são
preenchidas por medula vermelha quando há produção ativa de células ósseas ou
uma reserva populacional de células mesenquimais e amarela quando o sítio foi
convertido para reserva de gordura com a idade e cortical, mais compacto, denso
e que possui um vaso sanguíneo central - sistema Haversiano.
O osso é revestido externamente
por periósteo sendo formado por duas camadas de tecido conjuntivo especializado
e as cavidades e espaços medulares são revestidos internamente por endósteo,
formado por uma simples camada de osteoblastos. O osso possui uma estrutura
microscópica, formado por osso trabeculado que tem rápida formação participando
da fase I do processo de cicatrização óssea, osso fasciculado encontrado ao
redor de ligamentos e articulações, osso composto que é uma transição entre
a fase l e II e osso lamelar que é a fase II do processo de cicatrização
óssea.
Na fase I do processo de regeneração
óssea ocorre o restabelecimento da rede vascular com rápida produção de osteóide,
formando ilhas individuais que se desenvolvem entre o trabeculado ósseo provavelmente
originado de células do enxerto e também de células circulantes (elas se desenvolvem
dentro do enxerto, proliferam e contribuem para a produção de osteóide). Durante
as primeiras 3 ou 4 semanas ocorre o coalescimento de ilhas de osteóide individual
formando a secreção de osteóide da rede fibrinosa.
Na fase II do processo, os osteoclastos
são fusionados por células mononucleares que chegam ao enxerto através de uma
rede vascular recém-formada. As proteínas ósseas morfogenéticas são liberadas
à medida que a Reabsorção do osso da fase I e a formação do trabeculado ósseo
ocorre. Conforme o osso vai sendo substituído, as proteínas ósseas morfogenéticas
atuam como uma ligação entre o osso reabsorvido e o depositado.
MISCH (2000) classificou a densidade
óssea de acordo com a quantidade e qualidade de osso cortical e trabecular.
Assim sendo, o osso
do tipo D1 possui uma cortical compacta e um trabeculado intenso (esse tipo
de osso é encontrado principalmente na região anterior de mandíbula), osso tipo
D2 possui uma cortical densa a porosa e trabeculado fino (comum em mandíbula),
osso tipo D3 tendo uma cortical fina e porosa com trabeculado fino (comum em
região de maxila), D4 cortical fina a inexistente com trabeculado fino (comum
em região posterior de maxila) e osso tipo D5, imaturo.
O processo de ossificação
pode ser intramembranoso em que a área deverá possuir uma camada frouxa de mesênquima
e uma ampla rede de capilares (pois essse tipo de ossificação ocorre em alta
tensão de O2 e endocondral (formando primeiramente cartilagem) que ocorre em
baixa tensão de O2' Na ausência de O2 ocorrerá fibrose. (GARG, 1999)
Osteogênese é definida
como células ósseas vivas transplantadas e com capacidade de formar novo tecido
ósseo no leito hospedeiro. Ex: Osso autógeno.
Osseoindução é a habilidade
em induzir o osso do hospedeiro a produzir novo tecido ósseo. Ex: Osso autógeno
e fatores de crescimento.
Osseocondução guia e conduz
o desenvolvimento de novo tecido ósseo através de sua matriz de suporte (arcabouço).
Ex: Biomateriais e osso autógeno
Distração do calo ósseo
é o alongamento de fragmentos ósseos através de estiramentos lentos e controlados.
Os fragmentos obtidos por osteotomia levarão a formação do calo ósseo.
Osteopromoção é a promoção
de selamento total de um local anatômico, permitindo a fórmação óssea a partir
do hospedeiro e impedindo a ação de fatores concorrentes. O selamento é obtido através
de meios físicos de tecidos competidores não osteogênicos. , Exemplo: Membranas
através de regeneração óssea guiada.
Regeneração é a substituição
de células parenquimatosas do mesmo tipo, podendo ser fisiológica (deposição
óssea) e reparadora (remodelação óssea). Reparo é uma ferida em nível ósseo
cicatrizando através da formação de um tecido fibrovascular.
Os métodos existentes
para aumento ósseo são enxerto ósseo autógeno, alógeno, xenógeno, enxerto aloplástico-biomateriais,
regeneração óssea guiada, fatores de crescimento, distração/expansão e combinações.
Os enxertos alógenos
formam osso por osseoindução ou osseocondução, obtido de cadáveres e armazenado
em bancos de osso. Podem ser mineralizados ou desmineralizados. A desmineralização
renova a fase mineral e expõe o colágeno e os fatores de crescimento do osso.
(PIKOS, 1999)
O enxerto xenógeno
é osso descalcificado congelado e seco de origem bovina.
Os enxertos aloplásticos
são feitos de material sintético ou natural, sendo apenas osteocondutores, funcionando
como um material de preenchimento. Cerâmicas como HA são seguras e bem toleradas
mas tem menor habilidade para formar novas inserções. Podem ser sintéticos como
fosfato de cálcio e naturais como o coral.
O enxerto autógeno
é retirado do próprio paciente. É altamente osteogênico, osteoindutivo e osteocondutivo.
Tem menor reabsorção e morbidade. Os tipos existentes são os intra-orais ou
extra-orais. As áreas doadoras intra-orais mais comuns são retro-molar, tuberosidade,
mento, ramo ascendente, processo coronóide, tórus e síntise mandibular. Os enxertos
extra-orais podem ser retirados da crista ilíaca, calota craniana e outras,
(GARG, 1999)
A
regeneração óssea guiada segue os princípios da regeneração tecidual guiada,
usando membranas. Dentre os pré-requisitos, podemos citar: fonte de células
osteogênicas, vascularização adequada, estabilização, espaço para aumento ósseo
e exclusão de tecidos competidores. As membranas devem prevenir a migração e
ação de fibroblastos, excluir fatores inibidores, concentrar fatores estimuladores
de crescimento no local, possuir propriedades estimuladoras, além de serem rígidas
mas não a ponto de dificultar o seu manuseio. (TINTI & BENFENATI, 1998)
Os fatores de crescimento
são lipoproteínas que controlam o processo de diferenciação celular. Tipos:
(STEFANI, CARVALHO, LIMA et al., 1997)
TGF-b (fator de crescimento transformador beta): Produzidos por macrófagos e osteoblastos ativos
PDGF (fator de crescimento derivado de plaquetas): Estimula a proliferação de células ósseas. Armazenado em grânulos de plaquetas e em macrófagos, células endoteliais e osteócitos
IGF (fator de crescimento semelhante a insulina): Estimula a replicação de células dessa linhagem e além de atuarem na secreção da matriz de colágeno.
OP-1 (proteína osteogênica 1 ): Membro da superfamília fator de crescimento de transformação b, atua na osteogênese
P-15: Clone sintético de uma sequência de aminoácido 15 do colágeno tipo 1 que está envolvido na adesão de células, particularmente osteoblastos e fibroblastos
BMP (proteína óssea morfogenética): Foram descobertas através de sua presença em extratos purificados do osso. Pertence a família TGF-b e são produzidos pelos osteoblastos. Além da rh- BMP2 são os únicos que produzem osteocalcina que atua na diferenciação de células mesenquimais indiferenciadas em osteoblastos. Processo de ossificação endocondral.
rhBMP-2 (proteína óssea morfogenética recombinante humana): Obtida através da expressão celular em bactérias, células de inseto ou mamífero. A opção de escolha mais utilizada são ovários de hamsters chineses. Pode ser conseguido em grandes quantidades sem risco de contaminação. Produzem osteocalcina. Pode induzir ossificação intramembranosa.
Discussão
Entre os pré-requisitos
para formação óssea há a necessidade de uma fonte de células formadoras ou com
capacidade de se transformar em células formadoras de osso (células osteoprogenitoras),
a presença de estímulo osteoindutor e de um meio osteocondutor, além de vascularização.
(GARG, 1999)
As vantagens do
enxerto alógeno são: disponibilidade, eliminação de um sítio doador do paciente,
menor quantidade de anestesia e tempo cirúrgico, diminuição da perda sanguínea
e menos complicações. Como desvantagens: uso de tecido de outra pessoa, risco
de rejeição, como o enxerto não é osteogênico a formação óssea mais lenta, resultando
em menor volume ósseo. (PIKOS, 1999)
A biocompatibilidade
dos biomateriais está relacionada com o comportamento das células em contato
com eles e particularmente com a adesão celular na sua superfície. Os biomateriais
estão disponíveis e são conhecidos por sua biocompatibilidade. (ANSELME, 2000)
Biomaterial é definido por HELMUS
& TWEDEN (1995) como "qualquer substância (outra que não droga) ou
combinação de substâncias, sintética ou natural em origem, que possa ser usada
por um período de tempo, completa ou parcialmente como parte de um sistema que
trate, aumente ou substitua qualquer tecido, órgão ou função do corpo".
Dentre os pré-requisitos, eles não devem produzir respostas biológicas adversas,
ser tóxico, carcinogênico, antigênico, mutagênico ou trombogênico.
Dentre as vantagens do enxerto
autógeno intra-oral e que pode ser feito com anestesia local, no consultório,
o pós-operatório é melhor possuindo menor custo. (GARG, 1999)
Entre os fatores que podem interferir
na reabsorção ou incorporação de enxertos autógenos: (HARDESTY & MARSH,
1990)
Componente ósseo
histológico (esponjoso ou cortical) Presença ou ausência de periósteo
Orientação do
enxerto
Leito receptor
Taxa de revascularização
Tipo de fixação
Idade do paciente
Dimensão do enxerto
Local da implantação
Origem embrionária do enxerto (membranosa possui menor reabsorção )
O maior questionamento sobre os fatores
de crescimento, que limita sua utilização na clínica diária de maneira irrestrita
diz respeito ao quesito segurança. Estudos in vivo e in vitro sugeriram
ausência de toxicidade dos fatores de crescimento. (STEFANI, CARVALHO &
LIMA, 1997)
Com o advento da técnica de produção
de fatores de crescimento recombinantes humanos eliminou-se a necessidade do
processamento de grandes quantidades de tecido para obtenção de poucos gramas
destas substâncias, permitindo que fossem produzidas em maiores quantidades,
com o mesmo ou maior potencial de ação dos fatores de crescimento, diminuindo
os custos de sua produção e tornando-os mais acessíveis a uma possível utilização
clínica.
Conclusão
O material ideal para enxertos ósseos
continua sendo o osso autógeno, mas nem sempre temos em quantidade suficiente
disponível, e o enxerto extra-oral as vezes torna-se inviáve!. Os biomateriais
foram considerados confiáveis, mas são apenas osteocondutores. O tempo necessário
para sua reabsorção e substituição devem ser considerados. (SCHER, DAY &
SPEIGHT , 1999)
Uma vez que os biomateriais
não são de origem animal ou humana, o potencial viral de transmissão de vírus
ou doenças é desconsiderado. (FURUSAWA, MIZUNUMA, YAMASHITA et al., 1998)
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*Especialista em Periodontia. Professora Auxiliar
do Curso de Especialização em Implantodontia do Instituto de Odontologia da
PUC
**Diretor da Clínica de Implantodontia da OCEx. Professor do Instituto Brasileiro
de Implantodontia-IBI. Coordenador do Curso de Especialização em Implantodontia
do Instituto de Odontologia da PUC
***Doutor em Materiais. Professor convidado do IME-Instituto de Metalurgia do
Exército. Professor Adjunto da Escola de Metalurgia da UFF