Importância da Superfície dos Implantes
Osseointegráveis na Biofixação

Carlos Nelson ELIAS* José Henrique Cavalcanti LIMA** Marcelo Henrique Silva PRADO***

RESUMO

    Apesar do titânio e suas ligas serem amplamente empregados na implantodontia e os resultados das experiências clínicas comprovarem que estes materiais apresentam excelente biocompatibilidade, existem dúvidas quanto às propriedades físicas ideais das superfícies dos implantes de titânio para se obter uma biofixação adequada. Não há um padrão definido para a morfologia das superfícies dos implantes odontológicos, característica esta importante, uma vez que a integração óssea é fortemente dependente da ligação das células com a superfície do implante. Este trabalho tem como objetivo analisar a influência das propriedades superficiais na biofixação dos implantes osseointegráveis , de titânio puro.

The influence of dental implant surface quality on bone integration

ABSTRACT

    In spite of the titanium and its alloys have been used in dental implants and the results of the clinical experiences showed that these materials present excellent biocompatibility, doubts exist with relationship to the ideals physical properties of the titanium dental implant surface. There is not a pattern defined for the morphology of the dental implants surfaces. This is an important characteristic, once the bone integration is strongly dependent of the atachment of the cells to tjhe implants surface properties in the pure titanium dental implant potencial for biomechanical interlocking of bone into implant surface.

PALAVRAS CHAVE

    Implantes odontológicos, superfícies de implantes, biofixação.

KEY WORDS

    Dental implant, implant surface, biomechanical.

INTRODUÇÃO

    O aumento do uso de titânio como biomaterial está associado as suas propriedades como baixo módulo de elasticidade, biocompatibilidade, boa resistência à corrosão e excelente osseointegração quando comparado com outros metais. Para BRANEMARK e al.9( 1985), o fenômeno da osseointegração se desenvolve a partir da nova formação óssea em íntimo contato com o implante em função. Para conseguí-la, foram desenvolvidas algumas normas, que envolvem ações desde a escolha do material até a colocação e preservação da prótese. Com base nos resultados dos trabalhos de Branemark e nos conceitos apresentados por outros pesquisadores (ALBREKTSSON, 1985; AMEEN2 1996), pode-se concluir que a osseointegração e o êxito do implante dependem do material empregado, do processo de fabricação, desenho, condições de usinagem, acabamento superficial, tipo do osso que o recebe, da técnica cirúrgica, da elaboração da prótese sobre os implantes e das condições de carregamento impostas durante a mastigação. Dentre os fatores cirúrgicos que influenciam no êxito dos implantes, os mais importantes estão relacionados com os cuidados tomados durante a intervenção com brocas e a intensidade do aquecimento, a qual deve ser inferior a 36ºC para não desnaturar as proteínas do tecido ósseo, permitindo assim o remodelamento ósseo ao redor do implante e a cicatrização por primeira intenção.

    Quanto à interface, o implante em função, apresenta fibrointegração, osseointegração ou biointegração. O termo fibrointegração, também denominado retenção fibro-óssea, foi definido pela AAID (American Academy of I mplant Dentistry) em 1986 como sendo o contato tecido- implante, interposição de tecido sadio e inexistência de tecido colágeno denso entre o implante,e o osso. Já o termo osseointegração refere-se ao contato físico existente entre o osso vivo e ordenado e o implante, sem interposição de tecido conjuntivo, quando o implante é submetido à carga funcional

    O termo biointegração consiste na união bioquímica do tecido vivo a superfície de um implante a qual é independente de qualquer mecanismo de união mecânica, e que se torna identificável no microscópio eletrônico de varredura. Observamos no entanto que, sempre nas interfaces osseointegráveis ou biointegráveis terão a participação ativa, tanto mecânica, por intermédio do desenho do implante, quanto biológica, através de adesão, por intermédio de união intima entre a superfície dos implantes e as glicoproteínas ou proteoglicanos e células. Teremos sempre portanto uma biofixação envolvendo o osso e a superfície do implante em função.

    A retenção mecânica independe do material mas, da geometria do implante. Por exemplo, os implantes em forma de parafusos. Os fatores que afetam o travamento mecânico estão associados a sua forma, existência ou não de furos e ranhuras e do tipo de filetes das roscas.

    Os mecanismos bioadesivos estão associados à ligação química das células e suas proteínas a superfície do implante, a qual depende da resposta do hospedeiro, da biocompatibilidade do material e das características superficiais do dispositivo. Os conceitos apresentados indicam que o êxito do emprego dos implantes osseointegráveis não depende apenas da habilidade do cirurgião para realizar o ato cirúrgico. Mas, a permanência e colocação do implante em função dependem dos procedimentos tomados desde a fase da escolha do material, execução do projeto, passando pela etapa da fabricação do implante e continuando com a profilaxia durante o período em que a prótese está em função.

MORFOLOGIA DA SUPERFÍCIE DOS IMPLANTES

    Além da seleção adequada do material a ser utilizado na fabricação dos implantes odontológicos, deve-se observar a qualidade do seu acabamento superficial, a qual é avaliada pela combinação de suas propriedades tribológicas físicas, químicas, mecânicas e microestruturais. A deficiência do acabamento do implante pode comprometer o êxito da cirurgia, principalmente, quando há a formação da camada de óxido de titânio com espessura e composição inadequada. Todo o trabalho do cirurgião poderá ser perdido se o implante não apresenta uma morfologia superficial que permita a adesão e crescimento das células. A situação é agravada com a presença de cavacos de usinagem e a existência de tensões residuais heterogêneas na superfície. O efeito nocivo da existência de cavacos de usinagem na superfície ou nos furos dos implantes, refere-se à possibilidade destes defeitos soltarem-se durante a inserção do implante no alvéolo cirúrgico, e devido ao pouco espaço entre o cavaco de usinagem e o implante não haverá nesta área à remodelação óssea.O processo de usinagem e os tratamentos subsequentes determinam as características da superfície dos implantes, em especial a estrutura eletrônica, cristalinidade, composição química, propriedades mecânicas e químicas.

    Com base nos conceitos existentes na Ciência dos Materiais, é possível variar a capacidade de retenção dos implantes endoósseos mediante a modificação da sua mortologia superficial. Esta atividade é iniciada pela caracterização metalúrgica da superfície do implante (ELIAS et al.12,13, 1999). Empregando-se as técnicas metalográficas é possível identificar as diferenças mais importantes entre as superfícies dos implantes comerciais sem revestimento, as quais estão relacionadas com a rugosidade, composição química, energia superficial, potencial químico devido à segregação, nível de encruamento, presença de compostos metálicos e não metálicos, existência de impurezas advindas da fabricação ou manuseio e espessura da camada de óxido. Esta análise é importante uma vez que as moléculas de proteínas interagem com os óxidos da superflcle do Implante e esta interação depende destes parâmetros. As variações da rugosidade em nível macroscópico ou microscópico propiciam áreas de contato diferentes com as células e biomoléculas e são responsáveis pela intensidade e tipos de ligações biológicas individuais. A composição química da superfície determina a estabi1idade e reatividade do Implante, a qual deve ser constituída unicamente por óxido de titânio para evitar que as ligações das biomoléculas sejam heterogêneas. A presença de impurezas na superfície compromete estas ligações.

    Conhecendo as condições ósseas do local da implantação e sabendo que o processo de biofixação dos implantes endoósseos e a cinética de neoformação óssea podem ser modificados pela qualidade e morfologia.da superfície dos implantes, o cirurgião escolhe o implante com geometria e acabamento superficial mais adequado a cada caso.

    Os tipos das superfícies dos implantes osseointegráveis podem ser , divididos em quatro grupos. No primeiro deles emprega-se o recobrirnento dos implantes de titânio com hidroxiapatita para acelerar a osseointegração. Em um segundo grupo usa-se a modificação da rugosidade superficial por jateamento com partículas abrasivas, ataque com ácidos ou deposição de um revestimento de partículas de óxido de titânio. No terceiro grupo realiza-se tratamentos termoquímicos com soluções alcalinas para ativar a superfície do titânio. E no quarto grupo não se emprega qualquer tratamento após a usinagem com o objetivo de alterar a morfologia, o implante é usado na condição como usinado. Para o fabricante de implantes, a escolha do tipo de tratamento a ser empregado pode ficar limitada aos equipamentos de usinagem existentes, laboratórios disponíveis e ao grau de desenvolvimento tecnológico alcançado.

    Os implantes tratados com ácidos possuem a rugosidade mais homogênea em relação aos outros tratamentos. Com este tratamento ocorre um aumento na área superficial ativa que consequentemente melhora a possibilidade de bioadesão. Este tratamento pode ser executado pela imersão do implantes em banhos de soluções HCI / H2SO4, HF/ HNO3, e HNO3 entre outras. Com o jateamento, o aumento das microcavidades é maior mas, há a formação de uma microcamada com tensões residuais compressivas e, em alguns casos, as partículas usadas no jateamento podem ficar incrustadas na superfície do implante, contaminando-o. Os níveis de valores das tensões residuais, devido ao jateamento, dependem da dureza e distribuição granulométrica das partículas empregadas no jateamento. Quanto maior a distribuição granulométrica das partículas abrasivas, mais heterogênea a distribuição das tensões. O aparecimento de tensões residuais heterogêneas cria pilhas galvânicas e reduz a resistência à corrosão dos materiais metálicos.

    Existem divergências quanto à influência do tipo de acabamento superficial do implante no êxito da cirurgia. Segundo MISCH 18 (1999), o tratamento da superfície influencia em 40% para o sucesso da cirurgia, ficando o restante por conta da técnica cirúrgica empregada, processo de cicatrização e dacarga aplicada sobre o implante após a regeneração óssea do local implantado. WENNERBERG et al.21 (1995), constataram que, para os implantes jateados com partículas de TiO2 serem removidos, necessitam de um torque 20% maior em relação aos implantes usinados. Outros pesquisadores (KASTEN17, 1999, MISCH18 1999) consideram que o revestimento com HA acelera a osseointegração.

ENERGIA SUPERFICIAL DOS IMPLANTES E INTERAÇÃO COM AS CÉLULAS

    O arranjo dos átomos na superfície externa dos metais é diferente da disposição atômica no volume interno. Esta variação eleva o nível de energia na superfície, tornando-a com maior tendência de absorver átomos e moléculas estranhas. Quanto maior a energia por unidade de superfície do metal, maior a possibilidade de ocorrerem reações entre o hospedeiro e a superfície do material e aumentam as possibilidades de ocorrerem modificações na composição do revestimento original. O titânio, por ter uma superfície com alta energia após sua usinagem, absorve moléculas de O2 as quais após cerca de 10 nanosegundos se dissociam e formam a primeira monocamada de oxigênio que se transforma em óxido de titânio em alguns milisegundos. Assim, dificilmente, haverá contato entre o corpo hospedeiro e o titânio puro mas, com a camada de óxido de titânio. Logo, para a biocompatibilidade dos implantes de Ti com pureza comercial, as propriedades do óxido são mais importantes que as do metal.

    BAIER et al.5 (1984) foram os primeiros a considerarem o efeito da energia superficial do titânio na bioatividade. Outros pesquisadores (HARTMAN15, 1989, BAGNALL4, 1983) investigaram a imfluência da composição química e da energia superficial de outros sistemas de implantes. BAIER et al 5 (1988), verificaram que a espessura da camada de proteínas que se forma na superfície dos implantes após 10 dias de implantação depende do estado de energia superficial. Observações histológicas feitas em implantes com alta energia de superfície indicaram que eles possuem camadas de proteínas com maior espessura do que os com baixa energia, revelando que a atividade celular varia com a energia superficial da amostra. Em testes "in vivo", quando os implantes com baixa energia de superfície foram mecanicamente separados da cápsula tecidual e inspecionados imediatamente ao microscópio, venficou-se que o tecido mole da superfície do implante ocorreu na maior parte da superfície: BAIER et al 5. (1988), ao examinarem os tecidos do hospedeiro em contato com implantes com baixa energia de superfície, verificaram que as células permaneceram com seu aspecto globular, quase esférico, além de perder sua aderência, podendo ser facilmente separadas umas das outras. O aspecto globular destas células permitiu identificá-las histologicamente como fibroblastos, este aspecto globular esta associado a um pobre crescimento celular em cultura, não estando relacionado à atividade normal dos fibroblastos no processo de cicatrização.

    Para o estudo da biocompatibilidade dos materiais e análise do nível de osseointegração, precisa-se dos conhecimentos e informações quantitativas e qualitativas do nível de energia superficial dos implantes, as quais inf1uenciam na atração, repulsão e interações entre as superfícies do biomaterial e proteinas, celulas e bactérias. A forma mais empregada para se obter informações acerca da energia livre superficial dos sólidos é por meio da medição do ângulo de contato com um !íquido. Na área de biomateriais, a regra geral e que matenais com tensão superficial entre 20 e 30 dinas/cm2 exibem uma baixa bioadesão. Materiais com valores de tensão superficial superiores a esta faixa apresentam maior bioadesão (BRUNETTE 11, 1988).

    BAIER e MEYER5; (1988) relacionaram a tensão superficial crítica dos implantes com a biocompatibilidade. Segundo estes autores, materiais com alta energia superficial absorvem mais facilmente macromoléculas, desenvolvem maior número de sítios favoráveis para ocorrer a ligação e formam camadas favoráveis para a ligação das células.

RESISTÊNCIA DA INTERFACE IMPLANTE-OSSO

    Apesar do percentual da área do implante recoberta com osso estar correlacionado com a qualidade da superfície dos implantes, não há definição da área mínima de contato entre o implante e o osso capaz de criar a ancoragem necessária para resistir aos esforços mastigatórios (HURÉ et al.16, 1996).

    WENNENBERG et al.21 (1995) comparando implantes com superfície usinada e jateada, constataram que a força necessária para remover implantes rosqueados, colocados em coelhos, é menor quando os implantes possuem a superfície na condição como usinada. Verificaram também que a fixação é maior quando a superfície do implante possui rugosidade entre 0,9 e l,3mm, obtida com jateamento com partículas de TiO2 ou AI2O3 e, não existe diferença significativa entre as amostras jateadas com partículas TiO2 e AI2O3 de igual granulometria. Este resultado pode ser atribuído ao fato de que o aumento da rugosidade da superfície melhora a fixação mecânica e facilita a distribuição de tensões com maior homogeneidade. No entanto, a presença de tensões residuais na superfície dos implantes pode prejudicar a resistência à degradação do material devido à corrosão

    A resistência da interface implante-osso tem sido analisada após a realização da cirurgia em duas e em uma fase. Procedimentos de implantação em duas fases resultaram em ancoragem de implantes endoósseos livre de tecidos fibrosos. BROSH et al.10 (1995) realizaram testes com implantes colocados no mesmo dia, e constataram que a resistência compressiva é de 451 +/- 813 N em espécimens colocados em cães. Três meses após a cirurgia, a resistência aumentou para 1194 +/- 132 N.

    A adesão e espalhamento das células em superfícies dos implantes são associadas às microestruturas que podem ser caracterizadas por microscopia óptica ou eletrônica. As principais estruturas de contato são: contato estreito, contato focal, matriz extracelular e hemidesmossoma. Pode-se encontrar na literatura BRUNETTE11 (1988), BINON7 (1992) os aspectos morfológicos destes tipos de interação, o que facilita ao iniciante a identificação dos mesmos.

REVESTIMENTOS DOS IMPLANTES

    Para aumentar a biofixação dos implantes de titânio com o sistema hospedeiro, tem-se procurado aumentar as interações implante-tecido mediante a deposiçãode uma camada de material bioativo na superfície do implante, destacando-se o uso de hidroxiapatita (HA), fosfato tricálcio e biovidro. Segundo KASTEN17 (1970), as células epiteliais da gengiva humana aderem com maior facilidade na hidroxiapatíta do que na superfície do titânío, ligas de títânio e plasma spray de titânio.

    A maior vantagem do emprego de revestimentos com material bioativo está na formação e maturação óssea mais rápida. MISCH18 (1999) observou que nos implantes com revestimento de HA a formação óssea e maturação ocorreram em menor período do que em implantes não revestidos. Com isso, diminui-se o tempo entre a cirurgia e a colocação da prótese, além de aumentar a área superficial do implante. O implante com revestimento é particularmente indicado para implantação em locaís de baixa qualidade óssea. Embora a aplicação comercial do revestimento de hídroxiapatita já esteja estabelecida, as vantagens clínícas, a longo prazo, deste revestimento, permanecem controvertidas.

    A hidroxíapatita é conhecida como material bíoativo e apresenta grande similaridade com os fosfatos de cálcio presentes na fase mineral do osso, esmalte e dentina humana. Para a HA ser utilizada como revestimento dos implantes, ela deve ser manuseada com cuidado, procurando-se manter inalteradas a sua estrutura cristalina e as características químicas da apatita. É importante que a camada de HA depositada possua aderência à superfície do implante, a resistência ao cisalhamento deve ser alta e não deve apresentar fragilidade. A forma mais usual de deposição dos revestimentos sobre o titânio é por meio da aspersão térmica, técnica através da qual as partículas a serem depositadas são aceleradas e projetadas a altas temperaturas contra a superfície do Implante. Neste processo a adesão é mecânica. Outras técnicas de deposição incluem eletroforese e precipitação a partir de soluções aquosas em ebulição (SILVA 19, 1999). Apesar de existirem especulações quanto à qualidade do revestimento quando depositado por aspersão, esta técnica tem sido a mais usada.

    Para obter o revestimento de fosfato de cálcio, ANDRADE3 ( 1999) sugere o tratamento da superfície dos implantes em autoclave com baixa concentração de NaOH seguido da imersão em solução similar à corpórea e acelular, seguido ou não de tratamento térmico.

    Inicialmente, os pesquisadores supunham que a formação de osso sobre a superfície do implante de titânio puro ocorria em toda a superfície do implante. Os resultados atuais indicam que a justaposição ocorre em 55% da superfície do implante sem recobrimento e em 80% da superfície dos implantes recobertos com hidroxiapatita. MISCH18 (1999) apresenta outros valores, segundo o qual os implantes revestidos com HA têm 66,3% da superfície recoberta com osso, enquanto que os não revestidos apresentam no máximo 50,2%. Porém, estudos realizados com cultura de células osteoblásticas em superfície de titânio puro e com hidroxiapatita, indicam que não existem diferenças qualitativas da ligação célula-implante entre as duas superfícies. Este resultado foi corroborado por ALBREKTSSON1 (1985); após ensaios in vivo, o qual não verificou diferença na união do osso com implantes com ou sem revestimento de HA, concluindo que pode haver reabsorção da hidroxiapatita pelo organismo.

    GROISMANN et al.14 (1999) reportam que o percentual de sucesso clínico ocorre em 97,64% dos implantes cilíndricos recobertos com HA, e em 94,65% dos implantes com roscas recobertas com HA. Salientam que, quanto menor o diâmetro do implante, menores os percentuais de êxitos observados. Atribuindo este resultado ao fato dos implantes de menores diâmetros serem empregados em regiões mais críticas e que possuem pouca largura e altura óssea

    Apesar do largo uso de implantes com revestimento de HA, ainda existem controvérsias clínicas quanto ao diagnóstico e indicações. Nas analises comparativas do desempenho dos Implantes com e sem revestimento, deve-se considerar que o emprego dos implantes recobertos com HA é mais recente, além do fato do grande número de variáveis envolvidas, entre elas: local de colocação, experiência do profissional, protocolo cirúrgico diferenciado, regime pós-operatório e próteses com tamanho e forma diferentes. BIESBROCK6 (1995), restringe o emprego de implantes recobertos de HA, sugerindo sua colocação quando o comprimento necessário do implante for menor ou igual a 10mm. Na Tabela I são apresentados os percentuais da superfície dos implantes recobertos com tecido ósseo após diferentes tempos (BIESBROCK6, 1995).

Tabela 1: Percentual da superfície do implante recoberto com osso (BIESBROCK6,1995)

3 meses em cão
6 meses em coelho
1 ano
Parafuso
45,66
Cilindro
54,96
59,9
Não há
Diferença
Cilindro c/HA
71,55
75,9

RUGOSIDADE

    Considerando que a interação das células e tecidos com o implante é afetada pela topografia em níveis macroscópicos e à rugosidade em nível microscópico, a priori, espera-se que o aumento da área superficial do implante, aumente o número de sítios para as células se ligarem, facilite o crescimento dos tecidos e aumente a estabilidade mecânica. Porém, isto não é uma regra geral. Fibroblastos evitam as superfícies rugosas e se acumulam em regiões mais lisas. Em contrapartida, macrófagos exibem rugofilia, ou seja, preferem superfícies rugosas. As células epiteliais são mais atraídas por superfícies rugosas do que por superfícies lisas, assim como células osteoblásticas aderem com maior facilidade a superfícies rugosas como as encontradas em implantes comerciais tratados com jateamento do que em superfícies polidas.

    O nível de rugosidade deve ser controlado porque as células necessitam de pontos de ancoragem na superfície do implante para iniciar a proliferação e garantir a biofixação. Se a superfície possui rugosidade muito menor que o tamanho das células, poderá ocorrer ausência dos sítios de fixação. Por outro lado, se o implante possuir grandes número de picos ou vales mas, estes possuem superfícies lisas as células, igualmente, não poderão se fixar.

    Diversos autores têm tentado quantificar a influência da rugosidade na osseointegração a fim de se atingir a melhor condição superficial. HARTMAN15, 1989; BAGNALL4, 1983; BOWERS8 1992; SILVA201999 analisaram a influência da rugosidade na adesão e morfologia das células osteoblásticas em amostras de titânio. Em seus trabalhos os espécimens foram polidos co lixa SiC 600, jateados com partículas de Al2O, de diâmetro médio igual a 50mm ou atacadas entre 1 a 10 minutos. Estes pesquisadores constataram que após o tratamento com ácido e passivação química, a morfologia da superfície torna-se mais homogênea e não há diferença significativa na rugosidade das amostras imersas no ácido durante 5 e 10 minutos. Após 5 minutos de teste não há diferença na morfologia das células aderidas nas amostras. Mas, após 120 horas, se observou maior número de células aderidas nas amostras jateadas com , Al2O3, do que nas tratadas com ácido.

    Como pode-se observar na Tabela 2, a variação da rugosidade Ra influencia no torque necessário para remover o implante. Apesar de existirem outros parâmetros que quantificam a rugosidade, nem sempre o valor de Ra é o melhor parâmetro para caracterizar a morfologia de uma superfície. Emprega-se o parâmetro Ra por se desconhecer quais as variáveis da rugosidade da superfície que melhor descrevem e permite prever o comportamento dos implantes.

    Embora o aumento da rugosidade da superfície promova uma maior ancoragem, a resistência da interface implante-osso não pode ser atribuída exclusivamente a este parâmetro, como pode-se observar na tabela 2. Constata-se nesta tabela que os implantes usinados e jateados com partículas de Al2O, de 25 e 250mm, apresentaram resistência ao torque praticamente iguais, apesar das rugosidades serem muito diferentes. Os implantes jateados com partículas de Al2O, com 25mm apresentaram maior área de contato osso-implante do que os tratados com partículas de Al2O, com 250mm, apesar do menor valor de Ra.

    CHEN et al.12 (1998) analisaram a influência da rugosidade na resistência à corrosão de implantes de titânio. As amostras foram usinadas ou polidas para obtenção de macro rugosidades e microrugosidades, respectivamente. A seguir foram tratadas a 400 e 700ºC durante 45 minutos e a temperatura ambiente durante 24 horas. Os ensaios de corrosão realizados em solução Hanks indicaram que as amostras tratadas a 400 ºC apresentaram a maior resistência a corosão e a menor liberação de íons. Este comportamento foi atribuído ao aumento da espessura da camada de óxido. Constataram também que o aumento da rugosidade diminui a resistência à corrosão e que as amostras no estado como usinadas apresentaram a maior liberação de íons.

    Na Patente PI9509934-4 consta que as irregularidades na superfície dos implantes devem ter a forma de cones com base cilindrica. Estes cones devem ter altura entre 0,3 e 2,0mm, base com diâmetro entre 0,3 e 2,0mm e espaçarnento entre si de 0,3 a 0,75mm. Apesar desta descrição detalhada da rugosidade, não há uma justificativa para as dimensões sugeridas.

Tabela 2: Variação da rugosidade (Ra), torque para remover os implantes colocados em coelhos (N.cm) e percentual da superfície recoberta com células.

Ra (µm)
Resistência torque
Superfície recoberta
Usinado
0,38*
38,4 N. cm
Jateado com partículas 25µm TiO2
0,88*
45,4 N. cm
Jateado com partículas 25µm AI2O3
0,82*
41,7 N. cm
46,4%
Jateado com partículas 250 AI2O3
2,11*
39,8 N. cm
39,2%
Polido lixa SiC 60
1,15**
Polido lixa 120
0,47**
Polido lixa 600
0,14**
Jateado com partículas 50mm AI2O3
0,87**
Ataque HF/HNO3 1 min
0,24**

CONCLUSÕES

  1. Nos último anos, o emprego dos implantes osseointegráveis tem aumentado consideravelmente e as pesquisas com animais tem permitido o desenvolvimento de teorias que auxiliam no entendimento do fenômeno da osseointegração. No entanto, existe uma grande lacuna na implantodontia, a qual não quantifica a influência das características tribológicas dos Implantes na bioflxação, principalmente na definição da melhor rugosidade e da energia superficial.
  2. Para a biocompatibilidade dos implantes osseointegráveis de Ti com pureza comercial, as propriedades do seu óxido são mais importantes que os do metal.
  3. Ainda existem controvérsias quanto às explicações que envolvem os mecanismos de ligação e intensidade das forças entre as células e a superfície do implante.

AGRADECIMENTOS

    Os autores agradecem ao CNPq (Processos 610159/99-2 e 1400354/97-7), à FAPERJ (Processo: E-26/170.563-99) e à empresa Conexão Sistemas e Próteses pelos auxílios dados na realização das pesquisas com implantes.

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