Importância
da Qualidade da Superfície dos Implantes
Osseointegráveis na Biofoxação
*
Carlos Nelson ELIAS - ** José Henrique Cavalcanti LIMA
Resumo
Apesar do titânio e suas ligas
serem amplamente empregados na implantodontia e os resultados das experiências
clínicas comprovarem que estes materiais apresentam excelente biocompatibilidade,
existem dúvidas quanto às propriedades físicas ideais das supert'ícies dos implantes
de titânio para se obter uma biofixação adequada. Não há um padrão definido
para a morfologia das superfícies dos implantes odontológicos, característica
esta importante, uma vez que a integração óssea é fortemente dependente da ligação
das células com a superfície do implante. Este trabalho tem como objetivo analisar
a influência das propriedades superficiais na biofixação dos implantes osseointegráveis
de titânio puro.
Abstract
In spite of the titanium and its alloys
have been used in dental implants and the results of the clinical experiences
showed that these materiaIs present excellent biocompatibility, doubts exist
with relationship to the ideaIs physical properties of the titanium dental implant
surface. There is not a pattern defined for the morphology of the dental implants
surfaces. This is an important characteristic, once the bone integration is
strongly dependent of the attachment of the cells to the implants surface. The
objective of this work is to analyze the influence of the surface properties
in the pure titanium dental implant potential for biomechanical interlocking
of bone into implant surface.
Palavras Chave
Implantes odontológicos,
superfícies de implantes, biofixação
Key words
Dental implant, implant
surface, biomechanical.
1. Introdução
O aumento do uso de titânio
como biomaterial está associado as suas propriedades como baixo módulo de elasticidade,
biocompatibilidade, boa resistência à corrosão e excelente osseointegração quando
comparado com outros metais. Para BRANEMARK et al.9 (1985), o fenômeno
da osseointegração se desenvolve a partir da nova formação óssea em íntimo contato
com o implante em função. Para conseguí-la, foram desenvolvidas algumas normas,
que envolvem ações desde a escolha do material até a colocação e preservação
da prótese. Com base nos resultados dos trabalhos de Branemark e nos conceitos
apresentados par outros pesquisadores (ALBREKTSSON1, 1985; AMEEN2
1996), pode-se concluir que a osseointegração e o êxito do implante dependem
do material empregado, do processo de fabricação, desenho, condições de usinagem,
acabamento superficial, tipo do osso que o recebe, da técnica cirúrgica, da
elaboração da prótese sobre os implantes e das condições de carregamento impostas
durante a mastigação. Dentre os fatores cirúrgicos que influenciam no êxito
dos implantes, os mais importantes estão relacionados com os cuidados tomados
durante a intervenção com brocas e a intensidade do aquecimento, a qual deve
ser inferior a 36°C para não desnaturar as proteínas do tecido ósseo, permitindo
assim o remodelamento ósseo ao redor do implante e a cicatrização por primeira
intenção.
Quanto à interface, o
implante em função, apresenta fibrointegração, osseointegração ou biointegração.
O termo fibrointegração, também denominado retenção fibro-óssea, foi
definido pela AAID (American Academy of Implant Dentistry) em 1986 como sendo
o contato tecido-implante, interposição de tecido sadio e a existência de tecido
colágeno denso entre o implante e o osso. Já o termo osseointegração
refere-se ao contato físico existente entre o osso vivo e ordenado e o implante,
sem interposição de tecido conjuntivo, quando o implante é submetido à carga
funcional.
O termo biointegração
consiste na união bioquímica do tecido vivo a superfície de um implante a qual
é independente de qualquer mecanismo de união mecânica, e que se torna identificável
no microscópio eletrônico de varredura. Observamos no entanto que, sempre nas
interfaces osseointegráveis ou biointegráveis terão a participação ativa, tanto
mecânica, por intermédio do desenho do implante, quanto biológica, através de
adesão, por intermédio de união intima entre a superfície dos implantes e as
glicoproteínas ou proteoglicanos e células. Teremos sempre portanto uma biofixação
envolvendo o osso e a superfície do implante em função.
A retenção mecânica independe
do material mas, da geometria do implante. Por exemplo, os implantes em forma
de parafusos oferecem maior facilidade para se obter a estabilidade primária.
Os fatores que afetam o travamento mecânico estão associados a forma, existência
ou não de furos e ranhuras e do tipo de filetes das roscas dos implantes.
Os mecanismos bioadesivos
estão associados à ligação química das células e suas proteínas a superfície
do implante, a qual depende da resposta do hospedeiro, da biocompatibilidade
do material e das características superficiais do dispositivo.
Os conceitos apresentados
indicam que o êxito do emprego dos implantes osseointegráveis não depende apenas
da habilidade do cirurgião para realizar o ato cirúrgico. Mas, a permanência
e colocação do implante em função dependem dos procedimentos tomados desde a
fase da escolha do material, execução do projeto, passando pela etapa da fabricação
do implante e continuando com a profilaxia durante o período em que a prótese
está em função.
2. Morfologia da superfície dos implantes
Além da seleção adequada do material a ser utilizado na fabricação dos implantes
odontológicos, deve-se observar a qualidade do seu acabamento superficial, a
qual é avaliada: pela combinação de suas propriedades tribológicas físicas,
químicas, mecânicas e microestruturais. A deficiência do acabamento do
implante pode comprometer o êxito da cirurgia, principalmente, quando há a formação
da camada de óxido de titânio com espessura e composição inadequada. Todo o
trabalho do cirurgião poderá ser perdido se o implante não apresenta uma morfologia
superficial que permita a adesão e crescimento das células. A situação é agravada
com a presença de cavacos de usinagem e a existência de tensões residuais heterogêneas
na superfície. O efeito nocivo da existência de cavacos de usinagem na superfície
ou nos furos dos implantes, refere-se à possibilidade destes defeitos soltarem-se
durante a inserção do implante no alvéolo cirúrgico, serem dissolvidos pelos
líquidos corpóreos e entrarem na corrente sanguínea do paciente. O processo
de usinagem e os tratamentos subsequentes determinam as características da superfície
dos implantes, em especial a estrutura eletrônica, cristalinidade, composição
química, propriedades mecânicas e químicas.
Com base nos conceitos
existentes na Ciência dos Materiais, é possível variar a capacidade de retenção
dos implantes endoósseos mediante a modificação da sua morfologia superficial.
Esta atividade é iniciada pela caracterização metalúrgica da superfície do implante
(ELIAS et al.12. 13, 1999). Empregando-se as técnicas metalográficas
é possível identificar as diferenças mais importantes entre as superfícies dos
implantes comerciais sem revestimento, as quais estão relacionadas com a rugosidade,
composição química, energia superficial, potencial químico devido à segregação,
nível de encruamento, presença de compostos metálicos e não metálicos, existência
de impurezas advindas da fabricação ou manuseio e espessura da camada de óxido.
Esta análise é importante uma vez que as moléculas de proteínas interagem com
os óxidos da superfície do implante e esta interação depende destes parâmetros.
As variações da rugosidade em nível macroscópico ou microscópico propiciam áreas
de contato diferentes com as células e biomoléculas e são responsáveis pela
intensidade e tipos de ligações biológicas individuais. A composição química
da superfície determina a estabilidade e reatividade do implante, a qual deve
ser constituída unicamente por óxido de titânio para evitar que as ligações
das biomoléculas sejam heterogêneas. A presença de impurezas na superfície compromete
estas ligações.
Conhecendo-se as
condições ósseas do local da implantação e sabendo-se que a estabilidade primária,
o processo de biofixação dos implantes endoósseos e a cinética de neoformação
óssea podem ser modificados pela forma, existência ou não de revestimento superficial,
qualidade e morfologia da superfície dos implantes, o cirurgião escolhe o implante
com geometria e acabamento superficial mais adequado ao tipo de osso disponível
e local da implantação.
Os tipos das superfícies
dos implantes osseointegráveis podem ser divididos em quatro grupos. No primeiro
deles emprega-se o recobrimento dos implantes de titânio com hidroxiapatita
para acelerar a osseointegração. Em um segundo grupo usa-se a modificação da
rugosidade superficial por jateamento com partículas abrasivas, ataque com ácidos
ou deposição de um revestimento de partículas de óxido de titânio. No terceiro
grupo realiza-se tratamentos termoquímicos com soluções alcalinas para ativar
a supertlcie do titânio. E no quarto grupo não se emprega qualquer tratamento
após a usinagem com o objetivo de alterar a morfologia, o implante é usado na
condição como usinado. Para o fabricante de implantes, a escolha do tipo de
tratamento a ser empregado pode ficar limitada aos equipamentos de usinagem
existentes, laboratórios disponíveis e ao grau de desenvolvimento tecnológico
alcançado.
Os implantes tratados
com ácidos possuem a rugosidade mais homogênea em relação aos outros tratamentos.
Com este tratamento ocorre um aumento na área superficial ativa que consequentemente
melhora a possibilidade de bioadesão. Este tratamento pode ser executado pela
imersão do implantes em banhos de soluções HC1/H2SO4, HF/HNO3 e H NO3, entre
outras. Com o jateamento, o aumento das microcavidades é maior mas, há a formação
de uma microcamada com tensões residuais compressivas e, em alguns casos, as
partículas usadas no jateamento podem ficar incrustadas na superfície do implante,
contaminando-o. Os níveis de valores das tensões residuais, devido ao
jateamento, dependem da dureza e distribuição granulométrica das partículas
empregadas no jateamento. Quanto maior a distribuição granulométrica das partículas
abrasivas, mais heterogênea a distribuição das tensões. O aparecimento de :
tensões residuais heterogêneas cria pilhas galvânicas e reduz a resistência
à corrosão dos materiais metálicos.
Apesar do elevado número
de pesquisas realizadas "in vivo" ou "in vitro", disponibilidade
de dados na literatura e interação, multidisciplinar entre pesquisadores, ainda
existem divergências quanto à influência do tipo de acabamento superficial no
êxito da cirurgia. Segundo MISCH18 (1999), o tratamento da superfície
influencia em 40% para o sucesso da cirurgia, ficando o restante por conta da
técnica cirúrgica empregada, processo de cicatrização e da carga aplicada sobre
o implante após a regeneração óssea do local implantado. WENNERBERG et al.21
( 1995), constataram que, para os implantes jateados com partículas de TiO2
serem removidos, necessitam de um torque 20% maior em relação aos implantes
usinados. Outros pesquisadores (KASTEN17, 1999, MISCH18, 1999)
consideram que o revestimento com HA acelera a osseointegração.
3. Energia superficial dos implantes e interação com as células :
O arranjo dos átomos na superfície externa dos metais é diferente da disposição
atômica no volume interno. Esta variação eleva o nível de energia na superfície,
tornando-a com maior tendência de adsorver átomos e moléculas estranhas. Quanto
maior a energia por unidade de superfície do metal, maior a possibilidade
de ocorrerem reações entre o hospedeiro e a superfície do material e aumentam
as possibilidades de ocorrerem modificações na composição do revestimento original.
O titânio, por ter uma superfície com alta energia após sua usinagem, adsorve
molécúlas de O2, as quais após cerca de 10 nanosegundos se dissociam e formam
a primeira monocamada de oxigênio que se transforma em óxido de titânio em alguns
milisegundos. Assim, dificilmente, haverá contato entre o corpo hospedeiro e
o titânio puro; mas, com a camada de óxido de titânio. Logo, para a biocompatibilidade;
dos implantes de Ti com pureza comercial, as propriedades do óxido são mais
importantes que as do metal.
BAIER et al5
(1984) foram os primeiros a considerarem o efeito da energia superficial do
titânio na bioatividade. Outros pesquisadores (HARTMANI5,1989, BAGNALL4,1983)
investigaram a influência da composição química e da energia superficial de
outros sistemas de implantes. BAIER et al.5 (1988), verificaram que a
espessura da camada de proteínas que se forma na superfície dos implantes após
10 dias de implantação depende do estado de energia superficial. Observações
histológicas feitas em implantes com alta energia de superfície indicaram que
eles possuem camadas de proteínas com maior espessura do que os com baixa energia,
revelando que a atividade celular varia com a energia superficial da amostra.
Em testes "in vivo", quando os implantes com baixa energia de superfície
foram mecanicamente separados da cápsula tecidual e inspecionados imediatamente
ao microscópio, verificou-se que o tecido mole da superfície do implante ocorreu
na maior parte da superfície. BAIER et al.5 (1988), ao examinarem os
tecidos do hospedeiro em contato com implantes com baixa energia de superfície,
verificaram que as células permaneceram com seu aspecto globular, quase esférico,
além de perder sua aderência, podendo ser facilmente separadas umas das outras.
O aspecto globular destas células permitiu identificá-las histologicamente como
fibroblastos, este aspecto globular está associado a um pobre crescimento celular
em cultura, não estando relacionado à atividade normal dos fibroblastos no processo
de cicatrização.
Para o estudo da
biocompatibilidade dos materiais e análise do nível de osseointegração, precisa-se
dos conhecimentos e informações quantitativas e qualitativas do nível de energia
superficial dos implantes, as quais influenciam na atração, repulsão e interações
entre as superfícies do biomaterial e proteínas, células e bactérias. A forma
mais empregada para se obter informações acerca da energia livre superficial
dos sólidos é por meio da medição do ângulo de contato com um líquido. Na área
de biomateriais, a regra geral é que materiais com tensão superficial entre
20 e 30 dinas/cm2 exibem uma baixa bioadesão. Materiais com valores de tensão
superficial superiores a esta faixa apresentam maior bioadesão (BRUNETTE11.
1988).
BAIER e MEYER5 (1988) relacionaram a tensão superficial crítica dos implantes
com a biocompatibilidade. Segundo estes autores, materiais com alta energia
superficial absorvem mais facilmente macromoléculas, desenvolvem maior número
de sítios favoráveis para ocorrer a ligação e formam camadas favoráveis para
a ligação das células.
4. Resistência da interface implante-osso
Apesar do percentual
da área do implante recoberta com osso estar correlacionado com a qualidade
da superfície dos implantes, não há definição da área mínima de contato entre
o implante e o osso capaz de criar a ancoragem necessária para resistir
aos esforços mastigatórios (HURÉ et al.16, 1996).
WENNENBERG et al21
(1995) comparando implantes com superfície usinada e jateada, constataram que
a força necessária para remover implantes rosqueados, colocados em coelhos,
é menor quando os implantes possuem a superfície na condição como usinada. Verificaram
também que a fixação é maior quando a superfície do implante possui rugosidade
entre 0,9 e I,3mm, obtida com jateamento com partículas de TiO2 ou A12O3 e,
não existe diferença significativa entre as amostras jateadas com partículas
TiO2 e A12O3 de igual granulometria. Este resultado pode ser atribuído ao fato
de que o aumento da rugosidade da superfície melhora a fixação mecânica e facilita
a distribuição de tensões com maior homogeneidade. No entanto, a presença de
tensões residuais na superfície dos implantes pode prejudicar a resistência
à degradação do material devido à corrosão.
A resistência da interface
implante-osso tem sido analisada após a realização da cirurgia em duas e em
uma fase. Procedimentos de implantação em duas fases resultaram em ancoragem
de implantes endoósseos livre de tecidos fibrosos. BROSH et al.10 ( 1995)
realizaram testes com implantes colocados no mesmo dia, e constataram que a
resistência compressiva é de 451 +- 813 N em espécimens colocados em cães. Três
meses após a cirurgia, a resistência aumentou para 1194 +- 132 N .
A adesão e espalhamento
das células em superfícies dos implantes são associadas às microestruturas que
podem ser caracterizadas por microscopia óptica ou eletrônica. As principais
estruturas de contato são: contato estreito, contato focal, matriz extracelular
e hemidesmossoma. Pode-se encontrar na literatura BRUNETTE11 (1988),
BINON7 (1992) os aspectos morfológicos destes tipos de interação,
o que facilita ao iniciante a identificação dos mesmos.
5. Revestimentos dos Implantes
Para aumentar a biofixação
dos implantes de titânio com o sistema hospedeiro, tem-se procurado aumentar
as interações implante-tecido mediante a deposição de uma camada de material
bioativo na superfície do implante, destacando-se o uso de hidroxiapatita (HA),
fosfato tricálcio e biovidro. Segundo KASTENI7 ( 1970), as células epiteliais
da gengiva humana aderem com maior facilidade na hidroxiapatita do que na superfície
do titânio, ligas de titânio e plasma spray de titânio.
A maior vantagem do emprego
de revestimentos com material bioativo está na formação e maturação óssea mais
rápida. MISCH18 (1999) observou que nos implantes com revestimento de
HA a formação óssea e maturação ocorreram em menor período do que em implantes
não revestidos. Com isso, diminui-se o tempo entre a cirurgia e a colocação
da prótese, além de se aumentar a área superficial do implante. O implante com
revestimento é particularmente indicado para implantação em locais de baixa
qualidade óssea. Embora a aplicação comercial do revestimento de hidroxiapatita
já esteja estabelecida, as vantagens clínicas, a longo prazo, deste revestimento,
permanecem controvertidas.
A hidroxiapatita é conhecida
como material bioativo e apresenta grande similaridade com os fosfatos de cálcio
presentes na fase mineral do osso, esmalte e dentina humana. Para a HA ser utilizada
como revestimento dos implantes, ela deve ser manuseada com cuidado, procurando-se
manter inalteradas a sua estrutura cristalina e as características químicas
da apatita. É importante que a camada de HA depositada possua aderência à superfície
do implante, a resistência ao cisalhamento deve ser alta e não deve
apresentar fragilidade. A forma mais usual de deposição dos revestimentos sobre
o titânio é por meio da aspersão térmica, técnica através da qual as partículas
a serem depositadas são aceleradas e projetadas a altas temperaturas contra
a superfície do implante. Neste processo a adesão é mecânica. Outras técnicas
de , deposição incluem eletroforese e precipitação a partir de soluções
aquosas em ebulição (SILVA 19, 1999). Apesar de existirem especulações
quanto à qualidade do revestimento quando depositado por aspersão, esta técnica
tem sido a mais usada.
Para obter o revestimento
de fosfato de cálcio, ANDRADE3 ( 1999) sugere o tratamente da superfície
dos implantes em autoclave com baixa concentração de NaOH seguido da imersão
em solução similar à corpórea e acelular, seguido ou não de tratamento térmico.
Inicialmente, os pesquisadores supunham que a formação de osso sobre a superfície
do implante de titânio puro ocorria em toda a superfície do implante. Os resultados
atuais indicam que a justaposição ocorre em 55% da superfície do implante sem
recobrimento e em 80% da superfície dos implantes recobertos com hidroxiapatita.
MISCH18 (1999) apresenta outros valores, segundo o qual os implantes
revestidos com HA têm 66,3% da superfície recoberta com osso, enquanto que os
não revestidos apresentam no máximo 50,2%. Porém, estudos realizados com cultura
de células osteoblásticas em superfície de titânio puro e com hidroxiapatita,
indicam que não existem diferenças qualitativas da ligação célula-implante entre
as duas superfícies. Este resultado foi corroborado por ALBREKTSSON1
(1985) após ensaios "in vivo", o qual não verificou diferença na união
do osso com implantes com ou sem revestimento de HA, concluindo que pode haver
reabsorção da hidroxiapatita pelo organismo.
GROISMANN et al.14
(1999) reportam que o percentual de sucesso clínico ocorre em 97,64% dos implantes
cilíndricos recobertos com HA e em 94,65% dos implantes com roscas recobertas
com HA. Salientam que, quanto menor o diâmetro do implante, menores os percentuais
de êxitos observados. Atribuindo este resultado ao fato dos implantes de menores
diâmetros serem empregados em regiões mais críticas e que possuem pouca largura
e altura óssea.
Apesar do largo
uso de implantes com revestimento de HA, ainda existem controvérsias clínicas
quanto ao diagnóstico e indicações. Nas análises comparativas do desempenho
dos implantes com e sem revestimento, deve-se considerar que o emprego dos implantes
recobertos com HA é mais recente, além do fato do grande número de variáveis
envolvidas, entre elas: local de colocação, experiência do profissional, protocolo
cirúrgico diferenciado, regime pós-operatório e próteses com tamanho e forma
diferentes.
BIESBROCK6 ( 1995), restringe o emprego de implantes recobertos
de HA, sugerindo sua colocação quando o comprimento necessário do implante for
menor ou igual a 10mm. Na Tabela I são apresentados os percentuais da superfície
dos implantes recobertos com tecido ósseo após diferentes tempos (BIESBROCK6,
1995).
Tabela
1: Percentual da superfície do implante recoberto com osso (B1ESBROCK6,
1995)
|
3
meses em cão
|
6
meses em coelho
|
1
ano
|
|
|
Parafuso
|
45,66
|
-
|
-
|
|
Cilindro
|
54,96
|
59,9
|
Não
há
doferença
|
|
Cilindro
com HA
|
71,55
|
75,9
|
6. Rugosidade
Considerando que a interação das células e tecidos com o implante é afetada
pela topografia em níveis macroscópicos e à rugosidade em nível microscópico,
a priori, espera-se que o aumento da área superficial do implante, aumente o
número de sítios para as células se ligarem, facilite o crescimento dos tecidos
e aumente a estabilidade mecânica. Porém, isto não é uma regra geral. Fibroblastos
evitam as superfícies rugosas e se acumulam em regiões mais lisas. Em contrapartida,
macrófagos exibem rugofilia, ou seja, preferem superfícies rugosas. As células
epiteliais são mais atraídas por superfícies rugosas do que por superfícies
lisas, assim como células osteoblásticas aderem com maior facilidade a superfícies
rugosas como as encontradas em implantes comerciais tratados com jateamento
do que em superfícies polidas.
O nível de rugosidade
deve ser controlado porque as células necessitam de pontos de ancoragem na superfície
do implante para iniciar a proliferação e garantir a biofixação. Se a superfície
possui rugosidade muito menor que o tamanho das células, poderá ocorrer ausência
dos sítios de fixação. Por outro lado, se o implante possuir grandes número
de picos ou vales mas, estes possuem superfícies lisas, as células, igualmente,
não poderão se fixar.
Diversos autores têm tentado
quantificar a influência da rugosidade na osseointegração afim de se atingir
a melhor condição superficial. HARTMANI5, 1989;BAGNALL4, 1983;BOWERS8
1992; SILVA 20 1999 analisaram a influência da rugosidade na adesão e
morfologia das células osteoblásticas em amostras de titânio. Em seus trabalhos
os espécimens foram polidos com lixa SiC 600,,jateados com partículas de Al2O3
de diâmetro médio igual a 50mm ou atacadas entre 1a 10 minutos. Estes pesquisadores
constataram que após o tratamento com ácido e passivação química, a morfologia
da superfície torna-se mais homogênea e não há diferença significativa na rugosidade
das amostras imersas no ácido durante 5 e 10 minutos. Após 15 minutos de teste
não há diferença na morfologia das células aderidas nas amostras. Mas, após
120 horas, se observou maior número de células aderidas nas amostras jateadas
com Al2O3 do que nas tratadas com ácido.
Como pode-se observar
na Tabela 2, a variação da rugosidade Ra influencia no torque necessário para
remover o implante. Apesar de existirem outros parâmetros que quantificam a
rugosidade, nem sempre o valor de Ra é o melhor parâmetro para caracterizar
a morfologia de uma superfície. Emprega-se o parâmetro Ra por se desconhecer
quais as variáveis da rugosidade da superfície que melhor descrevem e permitem
prever o comportamento dos implantes.
Embora o aumento da rugosidade
da superfície promova uma maior ancoragem, a resistência da interface implante-osso
não pode ser atribuída exclusivamente a este parâmetro, como pode-se observar
na tabela 2. Constata-se nesta tabela que os implantes usinados e jateados com
partículas de Al2O3 de 25 e 250mm, apresentaram resistência ao torque praticamente
iguais, apesar das rugosidades serem muito diferentes. Os implantes jateados
com partículas de Al2O3 com 25mm apresentaram maior área de contato osso-implante
do que os tratados com partículas de Al2O3 com 250mm, apesar do menor valor
de Ra. A adesão de células de osteoblastos depende da rugosidade da superfície
mas, não é o único parâmetro que exerce influencia, conforme constatado por
Bowers8, cujos resultados são mostrados na tabela 2.
CHEN et al.12
( 1998) analisaram a influência da rugosidade na resistência à corrosão de implantes
de titânio. As amostras foram usinadas ou polidas para obtenção de macrorugosidades
e microrugosidades, respectivamente. A seguir, foram tratadas a 400 e 700 °C
durante 45 minutos e a temperatura ambiente durante 24 horas. Os ensaios de
corrosão realizados em solução Hanks indicaram que as amostras tratadas a 400
°C apresentaram a maior resistência à corrosão e a menor liberação de íons.
Este comportamento foi atribuído ao aumento da espessura da camada de óxido.
Constataram também que o aumento da rugosidade diminui a resistência à corrosão
e que as amostras no estado como usinadas apresentaram a maior liberação de
íons.
Tabela 2: Variação da rugosidade (Ra), torque para remover os implantes colocados em coelhos (N.cm) e percentual da superfície recoberta com células.
|
Ra(µm)
|
Resistência
torque
|
Superfície
recoberta
|
|
|
Usinado
|
0,38*
|
38,4N.cm
|
|
|
Jateado
com partículas 25µm
TiO2
|
0,88*
|
45,4N.cm
|
|
|
Jateado
com partículas 25µm
AI2O3
|
0,82*
|
41,7N.cm
|
46,4%
|
|
Jateado
com partículas 250
AI2O3
|
2,11*
|
39,8N.cm
|
39,2%
|
|
Polida
lixa SiC 60
|
1,15**
|
||
|
Polida
lixa 120
|
0,47**
|
||
|
Polida
lixa 600
|
0,14**
|
||
|
Jateado
com partículas 25µm
TiO2
|
0,87**
|
||
| Ataque HF/HNO3 1min |
0,24**
|
* WENNERBERG21 ** BOWERS8
Na Patente PI9509934-4
consta que as irregularidades na superfície dos implantes devem ter a forma
de cones com base cilíndrica. Estes cones devem ter altura entre 0,3 e 2,0mm,
base com diâmetro entre 0,3 e 2,0mm e espaçamento entre si de 0,3 a 0,75mm.
Apesar desta descrição detalhada da rugosidade, não há uma justificativa para
as dimensões sugeridas.
7. Conclusões
Nos último anos, o emprego
dos implantes osseointegráveis tem aumentado consideravelmente e as pesquisas
com animais tem permitido o desenvolvimento de teorias que auxiliam no entendimento
do fenômeno da osseointegração. No entanto, existe uma grande lacuna na implantodontia,
a qual não quantifica a influência das características tribológicas dos implantes
na biofixação, principalmente na definição da melhor rugosidade e da energia
superficial.
Para a biocompatibilidade
dos implantes osseointegráveis de Ti com pureza comercial, as propriedades
do seu óxido são mais importantes que as do metal.
Ainda existem controvérsias quanto às explicações que envolvem os mecanismos de ligação e intensidade das forças entre as células e a superfície do implante.
Agradecimentos
Os autores agradecem ao
CNPq (Processos 610159/99-2 e 400354/97- 7), à FAPERJ (Processo: E-26/170.563-99)
e à empresa Conexão Sistemas e Próteses pelos auxílios dados na realização das
pesquisas com implantes.
Referências Bibliográficas
ALBREKTSSON, T. The response of bone to titanium Implants, Crit. Rev. Biocompatibilit V. p.53-84, 1985.