Implantologia:
ciência, filosofia ou ambas?
Prof.
Dr. Glauco Longo Guerrieri* C - Todo mamífero tem um
coração. " Todos os cavalos são mamíferos.
A
implantodontia tem como base um conjunto de conhecimentos
sistematizados acumulados, que permite explicar a predizer as relaçoes fenomenológicas
entre implante, tecidos biológicos e órgãos.
A Implantodontia é, na realidade, Ciência e Filosofia ,
ao mesmo tempo, porque tem uma doutrina. E ciência
porque exige rigorosos métodos, pelos quais ela utiliza e adquire seus conhecimentos.
As palavras ou termos por ela utilizados são claramente definidos, a fim de
tornar possível que outros estudem o seu significado. Seus métodos de coletar
dados são imparciais, além de ser exigente na interpretação das informações
e relacionar os fenômenos observados.
A Implantodontia tem por filosofia observar a estética
e a restauração do equilíbrio psicossomático e social do paciente, restabelecendo
a função mastigatória alterada. Ela obedece aos dois princípios básicos da biologia:
"Primum nom Nocere e Restitucio ad integrum". Na filosofia, a implantodontia
pode ser analisada sob os seguintes aspectos:
1- Especulativo -Em que se propõe o problema
e se busca a solução (o paciente desdentado);
2- Topológico -Em que se estuda o campo de atuação
do profissional especialista (a boca e as maxilas);
3 -Fenomenológico -Em que são estudados os fenômenos
que se desenvolvem neste campo (físicos, químicos, biológicas, de engenharia,
de compatibilidade etc.);
4 -Simbológico -São estudados os diferentes nomes
sugeridos, propostas para o estudo do campo implantodôntico (osteometria, antrostomia,
implantação, explantação, fator 3R etc);
5 -Sistemático -São propostas e encaminhadas
as classificações lógicas, sistemáticas e metódicas (implantes de superfície,
de extensão, de profundidade, de estabilidade endodôntica etc);
6 -Estrutura -São estudadas e relacionadas as
espe
cialidades e os especialistas
nas áreas científicas (em justa-osséa ou subperiostal, parafuso, agulheado etc);
7 -Dialética- Em que se procede a troca de opiniões
entre as especialidades e os especialistas, num intercâmbio de informações. Procura
debater a relação multidisciplinar (Periodontia, Endodontia, Cirurgia, Medicina,
Engenharia, etc);
8 -Axilogia -Estabelece os valores e o estudo
dos valores.
9 -Reologia -Estuda, sob forma generalizada, as
tensões e as deformações correspondentes nos corpos, levando-se em conta o tempo.
Abrange elasticidade, plasticidade e mecânica dos fluídos. Ex. reologia do osso.
O implantontista precisa não se descuidar na sua formação
cultural, para não ser considerado aquele que "conhece mais e mais a respeito
de menos e menos ", ou aquele especulador filosófico "que sabe menos
e menos a respeito de mais e mais ", significando isto a restrição do campo
de visão. É preciso ter o cuidado para não perder a perspectiva do seu trabalho.
O implantodontista tem necessidade e obrigação de exercer a dialética.
A Implantodontia gerou uma terminologia técnica e trouxe
para si uma série de termos de engenharia que precisam ser divulgados e o processo
de conhecimentos difundido.. A ciência nos dá a consciência e a Filosofia
aceita debater. Para se constituir como ciência, a Implantodontia necessita de
um campo de investigações novo, fornecendo conhecimentos suscetíveis de formulação
exata.
A Filosofia é a interpretação do fato desconhecido ou
do inexatamente conhecido. A Ciência pesquisa e a Filosofia normatiza. Dizem os
pesquisadores que " a Filosofia é a trincheira de frente no cerco à verdade.
A Ciência é o terreno conquistado". A Ciência é a descrição analítica e a
Filosofia é a interpretação sintética." A Ciência quer verter o todo em parte,
o organismo em órgãos, o obscuro em claro. O cientista é imparcial e o filósofo
não se satisfaz com o fato, quer aprender sua relação, quer introsar as peças,
as quais o cientista já examinou isoladamente". Ironizando, podemos dizer
que " a Ciência nos ensina como curar e também nos ensina como matar por
atacado na guerra. Observar os processos e construir meios é Ciência. Criticar
e coordenar os fins é Filosofia. O fato nada é sem uma finalidade, pois o fato
é contundente. O fato existe e não pode ser contestado. Para estudá-lo, precisamos
conhecer a sua causa e devemos lembrar-nos de que precisamos conhecer as leis
da natureza, e aqui nos referimos às leis da Dinâmica Óssea, pois assim
nos
tornaremos seus senhores e não seus escravos.
Não nos esqueçamos de que, no campo da Implantodontia,
existe ainda um vasto desconhecimento desta leis, e que a investigação e o seu
estudo através das implantações entram em conflito com a resistência da ignorância
de alguns, que dificultam as pesquisas e atrasam o estabelecimento de padrões
de qualidade na fabricação dos implantes, impelindo o comércio não-confiável de
venda de implante. Precisamos de padrões, pois a pesquisa científica necessita
da experimentação para formular conclusões de servicibilidade dos mesmos. Têm
de haver um estudo lógico e uma observação dos argumentos, ser verdadeiros ou
não, para que não se tirem conclusões erradas. Assim, precisamos ter cuidado,
pois podemos ter um argumento falso e obter uma conclusão supostamente verdadeira,
ou, ao contrário, um argumento verdadeiro com uma conclusão falsa. Um exemplo
disso podemos ver na seguinte proposição:
A - O implante de titânio é material biocompatível.
(verdadeiro).
O dente natural
é material biocompatível. (verdadeiro)
O implante é
dente. (falso)
Os fabricantes de implantes ou inovadores de técnica, muitas
das vezes, usam argumentos verdadeiros e apresentam conclusões falsas ou aparentemente
verdadeiras. Os implantodontistas precisam estar atentos ao raciocínio lógico
e não safismático. Quando um argumento se apresenta para justificar sua conclusão,
duas questões se colocam:
1) As premissas são verdadeiras..
2) As premissas estão relacionadas adequadamente com a
conclusão. É a mais perigosa das conclusões e que muitos propagandistas usam.
Nós temos dois raciocínios, um dedutivo e um indutivo.
No dedutivo as premissas são verdadeiras. Assim, por exemplo:
B - Os dentes obedecem às leis de Dinâmica Óssea.
Os implantes
substitui os dentes.
Os implantes
devem obedecer às leis de Dinâmica Óssea.
Raciocínio - as palavras devem obedecer significa
que há implantes que não obedecem.
Se, ao contrário: os dentes devem obedecer às leis
de Dinâmica Óssea, o raciocínio seria uma conclusão de que existem dentes que
não obedecem às leis DO, o que não seria verdadeiro. O significado das palavras
é muito importante. Para ser verdadeira, a palavra "devem" teve de ser
colocada.
Todos os cavalos
têm um coração.
Vemos, desta forma, no raciocínio dedutivo, que as duas
premissas são verdadeiras e a conclusão é verdadeira. Vimos, assim, que no raciocínio
dedutivo toda informação, para ser tirada a conclusão estava implicitamente
nas premissas. No raciocínio indutivo, temos dois procedimentos,
que são:
1) se todas as premissas são verdadeiras, a conclusão é provável
ser verdadeira, mas não necessariamente verdadeira.
2) a conclusão encerra informação que não estava nem implicitamente
nas premissas. Exemplo:
a) o fato de não termos observado
a existência de um cavalo sem coração é um indício de que todos os cavalos têm
um coração.
b) o fato de não termos observado
um insucesso na implantação não indica que não haja insucesso.
D - Os dentes se sustentam com o ligamento
periodontal.
Os implantes não
têm ligamento periodontal (logo inferimos).
Os implantes não
se sustentam.
A conclusão, neste caso, enuncia alguma coisa que ultrapassa
a informação contida na premissa. É por isso que a conclusão pode ser falsa,
mesmo que a premissa seja verdadeira. No raciocínio dedutivo, não há gradações
intermediárias. A conclusão é inteiramente conclusiva e não pode ser falsa quando
as premissas são verdadeiras.
É preciso ter-se o cuidado com o raciocínio indutivo,
pois pode se admitir uma conclusão falsa, ainda que as duas premissas sejam
verdadeiras. Assim, por exemplo: um fabricante de implantes examina 10% da produção
de uma máquina. Nessa amostra desta máquina, ele conclui sobre toda a produção
da fábrica.
E - A fábrica "tal" de implantes produziu
1.000 implantes de titânio.
Os implantes de
titânio representam sucesso.
Logo, os implantes
de titânio desta fábrica são sucesso.
A conclusão foi inferida e é falsa, mesmo que as premissas
sejam verdadeiras. Essa amostra não é suficientemente ampla para uma generalização
no terreno da Biologia, e não é digna de crédito porque representa um estatística
insuficiente. Muitos conferencistas, afim de evitar discussão, dizem, o melhor,
afirmam que todas as técnicas implantodônticas são válidas. Então, o raciocínio
dedutivo infere que não existem técnicas não-válidas, mesmo as que não obedecem
às leis de Dinâmica Óssea, leis do protocolo cirúrgico. A palavra todas é muito
importante. E o mesmo que dizermos "que todos os cavalos são mamíferos".
Inferimos logo: não existe cavalos sem ser mamíferos. A palavra todas é decisiva
para conclusão.
F - Há um chapéu grande nesta sala.
Alguém é o proprietário
deste chapéu.
Pessoas de grande chapéu
têm cabeça e cérebro grandes.
Pessoas de cérebro e cabeça
grandes são intelectuais. (falso).
O proprietário deste chapéu
é um intelectual.
Vemos neste exemplo que bastou introduzir uma premissa falsa
para que a conclusão se tornasse falsa.
Todos os mamíferos são mortais.
Todos os cães são mortais.
Todos os cães são mamíferos.
Todos os homens são racionais.
As mulheres não são homens.
Todas as mulheres não são racionais (são irracionais).
Nem todos os materiais servem para implantação.
Nesta simples frases, infere-se, pela inclusão da pala vra todos, que
existem materiais que servem para implantação.
Os dentes obedecem às leis de Dinâmica Óssea.
Os implantes se equivalem aos dentes.
Os implantes obedecem às leis de Dinâmica Óssea.
O sucesso depende das leis de Dinâmica Óssea.
Nem todo implante obedece às leis de Dinâmica óssea.
Nem todo implante é sucesso.
Os dentes são biocompatíveis com tecido ósseo.
O implante substitui o dente.
O implante é fabricado com titânio.
Logo, o titânio é o biocompatível com o tecido ósseo.
Às vezes o desconhecimento do conteúdo de um
material pode nos levar à conclusão falsa. Exemplo:
Pela manhã bebo Coca-Cola com gim e tenho dor de cabeça.
Outra manhã, bebo Coca-Cola com uísque e tenho dor de
cabeça.
Na manhã seguinte, bebo Coca-Cola com rum, e tenho dor
de cabeça.
Concluo que é a Coca-Cola que produz a dor de cabeça.
Concluindo este trabalho, podemos dizer que o seu objetivo
é estimular o raciocínio, afim de que a implantodontista possa estar atento
às qualidades apregoadas por alguns fabricantes de implantes aloplásticos disfarçados
em conferencistas e ministradores de cursos de especialista em Implantodontia.
* Implantodontista - Professor Titular do Instituto Brasileiro de Impalntodontia