Caracterizacão e avaliacão do hexágono externo na interconexão de implantes orais à seus respectivos componentes

Aziz Constantino*

Resumo
       A interconexão entre implantes e seus respectivos componentes protéticos permanece como um problema para "designers", fabricantes e clínicos envolvidos com a implantologia oral.
       A alternativa mais utilizada em todo o mundo é o hexágono externo, introduzido por Branemark e o Grupo de Gotemburgo há 3 décadas com o objetivo primário de viabilizar o rosqueamento do implante, associando-se posteriormente à possibilidade de impedir a rotação do componente protético. Muitos, entretanto, são os relatos em literatura que apontam índices elevados de fraturas ou desrosqueamento do parafuso retentor nesta modalidade de interconexão.
       O objetivo deste trabalho foi desenvolver uma nova metodologia para caracterizar e avaliar esta modalidade de interconexão através de imagens de grande e médio aumentos, além de medições de alta precisão.
        Dez implantes com hexágono externo padrão Branemark provenientes de cinco diferentes marcas comerciais foram adequadamente, conectados à seus respectivos componentes protéticos standard. Em uma primeira fase de experimentação, analisou-se o movimento rotacional imposto de forma uniforme à cada um deles, através da observação e medição em microscopia ótica e eletrônica do deslocamento rotacional dos componentes.
        Na segunda etapa, aplicou-se ao parafuso retentor de cada conjunto implante/componente uma força de 35Nlcm, incluindo-se as amostras em resina especial sob vácuo para o devido seccionamento coronal e longitudinal: viabilizando a observação das interfaces de conexão. Microscopia eletrônica de Varredura (MEV) e um "software" de medição eletrônica foram utilizados para caracterizar, medir e avaliar o mecanismo de travamento e a precisão das peças.
        Os resultados ilustram com clareza como o "design" de hexágono externo estará sempre sujeito à micro-movimentos rotacionais, apresentando os espaços característicos da folga e tolerância de usinagem dos componentes como principal causa.
        Ainda que não tenha objetivado aferir qualidades de marcas distintas de produtos a metodologia aqui apresentada permitiu a constatação de variação dimensional e rotacional significativas entre dIferentes fabricantes, e em certos casos, diferentes amostras da mesma procedência, ilustrando como estes espaços estão diretamente associados com a magnitude do movimento rotacional observado.

Abstract

       The interconnection between implants and prosthetic components remains as a problem to designers, manufacturers and clinicians.. The most internationally used design is the external hexagon, introduced by Branemark and the Gotembourg Group 3 decades ago, created at first to permit the screw insertion, and latter
associated to anti-rotational purposes. Many are the reports at literature presenting high indexes for fracture and disconnection of the retaining screw at this modality of interconnection.
       The purpose of the investlgation was to develop a new method to characteríze and evaluate this modality of interconnection at high medium magnification images and precise measurements.
       Ten external hexed implarts with Branemark dimensions from five different manufacturers were properly interconnected to their specific standard straight type abutments. At the first part of the investigation, a rotational movement imposed uniformly at every implant/abutment sample was evaluated at optical and electronic microscopy.
        At the second phase, a standard torque force of 35N/cm was applied at every retaining screw and prepared for analysis. The samples were embedded in resin under vacuum, cross and axial sectioned and polished.
        
Scanning Electron Microscopy (MEV) and an electronic software were used to characterize, measure and evaluate the locking mechanism and precision of the parts.
        The results clearly illustrates how the external hexagonal design is always subject to a micro-rotational movement, presenting the machining tolerance spaces between the implant external hex and the abutment internal hex as the major causes.
        Although it was not the aim of this investigation to evaluate and compare difterent manufacturers, the proposed method showed significant dimensional and rotational variations between manufacturers and in some cases, between samples of the same manufacturers, illustrating how these spaces are directly associated to the magnitude of rotational movements.

Introdução

        
A reabilitação de pacientes edentados através de implantes tem sido uma das modalidades terapêuticas que maior difusão alcançou nos últimos anos.
       Com a consolidação dos fundamentos científicos e a sedimentação dos procedimentos técnicos, o prognóstico para a permanência dos implantes contemporâneos em estado de saúde junto ao tecido ósseo atinge períodos superiores à 15 anos -AdelI et al.. ( 1991 ).
        A potencial estabilidade biológica do implante junto ao osso, entretanto, pode enfrentar determinados obstáculos, relacionados ao regime oclusal , à características e limitações dos aparelhos protéticos à alterações no estado de saúde oral ou sistêmico do paciente e à limitações físicas dos materiais.
        Uma das variáveis rotineiramente interpostas ao sucesso de reabilitações implantológicas relaciona-se problemas decorrentes da interconexão dos chamados "componentes protéticos" ao corpo de detenninados implantes.
       Com o advento da osseointegração, difundido por Branemark e pelo Grupo de Gotemburgo na década de 80, estabeleceu-se o modelo de implante constituído de duas partes distintas: a intra-óssea e a protética, viabilizando o conceito de cicatrização protegida através da submersão da parte intra-óssea sob o periósteo.        Decorrido o período denominado de "osseointegração", esta metodologia permite a união das duas partes através da exposição cirúrgica da parte intra-óssea e a conexão por encaixe e parafusamento da parte protética.



Figura 1 : diagrama de ilustração de conexão proposta por Branemark


        
Com a imensa ampliação no emprego deste tipo de implantes e a indicação cada vez mais frequente de implantes unitários, sujeito à cargas rotacionais índividualizadas, passaram a surgir vários relatos em literatura reportando índices expressivos de desconexão dos componentes e fratura dos parafusos retentores após os primeiros anos de função mastigatória.
        Consciente da abrangência do problema, a comunidade implantológica, compreendida por pesquisadores, fabricantes e profissionais usuários passou a se preocupar com as causas e efeitos deste fato que atinge uma memorável quantidade de reabilitações realizadas sob este desenho de conexão.
        Este trabalho objetiva a caracterização do hexágono externo, a proposta conectiva adotada pela maioria dos implantes realizados contemporaneamente, e a avaliação das variáveis associadas à este conceito de conexão no que se refere à sua vulnerabilidade em cargas e movimentos rotacionais.

Revisão de Literatura

        
Zarb e Schimitt ( 1990 ) identificaram a fratura do parafuso retentor de ouro em conexões de hexágono externo em implantes como a mais frequente complicação protética em grupo de 46 pacientes
 edentados tratados consecutivamente. Eles observaram que dois pacientes foram responsáveis por 71% das fraturas e sugeriram que cargas adversas poderiam ter sido resultados de hábitos parafuncionais bem como o desfavorável desenho mecânico dos componentes estaria associado à etiologia dos problemas.
        Jemt et al. ( 1990 ) em estudo longitudinal de 3 anos envolvendo implantes unitários revelou que o desrosqueamento do parafuso retentor evidenciou-se em mais de 50% das reabilitações no primeiro ano de acompanhamento.
       Jemt et al. ( 199 I) reportou que em uma população de 373  pacientes que receberam 391 próteses.. 42% na maxila e 27% na  mandíbula exibiram instabilidade dos parafusos retentores de ouro já  na segunda semana após a instalação da prótese.
        Adel! et al. ( 1991 ) em estudo que envolveu 4.636 implantes de Branemark em 700 pacientes.
        Tolman e Laney ( 1992 ) ofereceram resultados obtidos em estudo envolvendo 407 mandíbulas, total ou parcialmente edentadas, e citaram como a mais frequente complicação a fratura do parafuso retentor, tanto da prótese quanto do componente protético.
         A Segunda Conferência Intemacional para Integração Tecidual  ( 1992 ), em seu relatório de conclusões; apontou que a completa compreensão dos aspectos mecânicos envolvidos no desenho de componentes implantológicos ainda não era suficientemente oferecida.
         Carr et al. ( 1992 ) estudou as características metalúrgicas e, mecânicas de parafusos retentores de titânio, apresentando e discutindo o conceito de cargas pré-aplicadas no aperto de componentes como fator de aumento na estabilidade das mesmas.
          Jormeus et al. ( 1992 ) Investigou diferentes desenhos e materiais de parafusos retentores de componentes protéticos, tendo por base a aplicação de cargas oclusais máximas "in vivo" em pacientes com reabilitações unitárias. Os melhores resultados encontrados incluiam parafusos retentotes de cabeça plana, confeccionados  em ouro e apertados sob torque de 35 N/cm,
          Sakaguchi et al. ( 1993) desenvolveram um modelo de estudo tri-dimensional de elementos finitos com componentes implantológicos, simulando os procedimentos de interconexão seguidos de cargas axiais. A aplicação de cargas resultou na separação do contato entre os componentes tanto parafuso retentor da prótese quanto no componente protético. A intermitência e repetição das cargas resultaram na alternação de contato e afastamento dos componentes, concluindo que os achados clínicos de desrosqueamento e fratura de componentes resultam desta movmentação observada no modelo apresentado.
          Schimitt e Zarb ( 1993 ) apontaram em seu estudo longitudinal de implantes unitários a desconexão e fratura de componentes como a principal complicação de ordem mecânica relacionada às próteses.
          Goheen et al. ( 1993 ) estudou a variação no torque aplicado manualmente na conexão de componentes implantológicos e a variação apresentada nos valores obtidos, relacionando problemas de desrosqueamento de componentes à insuficiência no torque de aperto.
          Laney et al. ( 1994) relataram resultados de estudo prospectivo multi-centro de 5 anos envolvendo implantes unitários. Num total de 92 pacientes, o mais frequente problema encontrado associou-se ao desrosqueamento ou fratura de parafusos retentores de componentes, com a necessidade de re-aperto em 10 pacientes.
          Engquist et al. ( 1995 ) apresentaram dados de estudo retrospectivo envolvendo 82 pacientes reabilitados através de implantes de Branemark em espeços protéticos unitários, apontando o desrosqueamanto de componentes como o problema de maior incidência.
        Binon ( 1995 ) realizou estudo comparativo da acuidade de implantes de diferentes fabricantes com seus respectivos componentes protéticos, apresentando uma variação altamente significativa nas dimensões que deveriam ser supostamente semelhantes.
       Haack et al. ( 1995) desenvolveu um método para determinar a pre-carga inicial a ser aplicada em componentes fundidos do tipo UCLA quando conectados à implantes como forma de reduzir a ocorrência de desconexões, indicando valores de 32N/cm para retentores de ouro e 20N/cm para parafusos retentores de titânio.
       Patterson et al ( 1995) reportou resultados "in vivo" de forças e momentos fletores transmitidos através dos componentes protéticos aos implantes. Os resultados foram comparados à teorias que geralmente superestimavam as forças máximas de tensão na fratura de componentes retentores, indicando que os momentos fletores desempenham um papel mais significativo nas falhas encontradas do que se imaginava até então.
       Sakagushi e Borgersen ( 1995 ) utilizaram um método de análise de contato através de elementos finitos para estudar o mecanismo de transterência de forças entre componentes protéticos causadas pelo torque aplicado aos parafusos retentores junto à implantes de hexágono externo. Observou que quando a força de torque aplicada ao parafuso retentor da coroa protética é incrementada, a mesma passa a ser transmitida na retenção junto ao implante e, simultaneamente, a força de retenção gerada na interface implante/componente protético é reduzida na ordem de até 50%.
        Avivi-Arber et al:' ( 1996) nos resultados de estudo longitudinal de 49 implantes unitários instalados consecutivamente e acompanhados por I à 8 anos, reportaram o desaperto dos parafusos retentores como a mais frequente complicação de ordem mecânica.
        Basten ét al. ( 1996 ) desenvolveu estudo da performace de duas diferentes combinações entre implantes e componentes protéticos quanto a resistência de fadiga; frente à aplicação de carga de 70 N,
aplicada aos impIantes no ângulo de 30 graus. Nos resultados encontrados evidenciou-se que o ponto de maior fragilidade foi o parafuso retentor de titânio nos componentes junto ao implante.
        Henry et al. ( 1996 ) em estudo multi-centro de 5 anos investigando 2 pacientes reabilitados com implantes unitários de hexágono externo, apontou incidência de 43% no desaperto de componentes retidos por parafuso de titânio.
        Binon ( 1996) apresentou estudo em que caracteriza a micro-movimentação presente em conexões de hexágono externo padrão Branemark, utilizando uma haste metálica e a medição do deslocamento rotacional apresentado nestas conexões.
         Carr ( 1996 ) publicou trabalho discutindo procedimentos de acabamento e polimento de componentes protéticos fundidos como alternativa para diminuir as ocorrências de má-adaptação e consequente desconexão junto à implantes.
         MacAlameye Stavropoulos ( 1996 ) discutiram a implicação da extensão de elementos protéticos suspensos em extremidade livre e a ocorrência de fraturas nos retentores de componentes implantológicos. Arranjos geométricos de 3, 4, 5 e 6 implantes foram analisados, sob forças aplicadas de 143, 200 e 400N, concluindo que a extensão do, "cantlever" ,isoladamente não pode determinar uma menor ou maior vulnerabilidade mecânica das conexões e seus respectivos parafusos retentores,
        Constantino et al. (1997) apresentou o piloto de metodologia desenvolvida através de Microscopia Eletrônica de Varredura para medir a magnitude do deslocamento rotacional em conexões tipo hexágono externo de Branemark, apontando movimentos acima de 100 mtn.
       
Priest ( 1999 ) relatou um total de 18.8% de complicações , protéticas em seu estudo longitudinal retrospectivo de 10 anos envolvendo 116 implantes unitários apontando a ocorrencia de desconexão
de componentes como causa predominante deste percentual.

Materiais e Métodos
                                      
        Os grupos de teste foram constituídos por implantes que apresentam hexágono externo padrão Branemark, produzidos pelos seguintes fabricantes, acompanhados dos respectivos componentes protéticos standard:

Grupo I ...................... lmplamed - Implamed/Sterngold, USA
Grupo II...................... Nobelbiocare -Nobelbiocare, Suécia
Grupo lll..................... Restore - Lifecore Biomedical,USA
Grupo IV.................... Calcitek - Sulzer, USA
Grupo V .................... lntra-Lock - Intra-Lock, Brasil

        Duas amostras de cada procedência foram obtidas através de seus respectivos fabricantes, registrando-se os lotes de fabricação.
        As avaliações foram processadas em duas fases distintas: a primeira - FASE I, investigando os micro-movimentos rotacionais das amostras interconectadas , e a segunda - FASE 2 estudando as dimensões dos espaços internos das mesmas em cortes longitudinais e coronais.
        A metodologia idealizada para a FASE I envolveu a interconexão padronizada dos implantes à seus respectivos componentes de forma a mantê-Ios apenas em contato completo, sem um aperto maior nos parafusos retentores. Uma vez conectados, procedeu-se a imobilização dos implantes e a aplicação de movimento de rotação no sentido horário em cada um dos componentes protéticos, garantindo que o limite imposto pelas faces dos hexágonos fosse atingido nesta direção.
        Nesta posição, foi realizado um sulco vertical contínuo através de ponta aguda de diamante junto a superfície do implante e do respectivo componente protético na região de sua interface, registrando a posição exata dos mesmos que foi registrada através de fotografias obtidas em estéreo-microscópio Zeiss sob um aumento de 40 X.
        Documentadas as posições iniciais, os implantes foram novamente imobilizados; aplicando-se desta feita movimentos anti-rotacionais nos respectivos componentes até que o limite apresentado pelos hexágonos fossem novamente atingidos no sentido oposto.
         Cada um dos conjuntos, previamente identificados, foi novamente fotografado em estéreo-microscopia em 40X, e em seguida observados em Microscopia Eletrônica de Varredura -MEV -Phillips XL40, onde procedeu-se a medição eletrônica do deslocamento observado nos sulcos calculado por programa disponível neste equipamento -valor M I. Uma planilha de resultados da FASE 1 foi produzida.
         A FASE 2 , que tratou de analisar as amostras em cortes, consistiu da aplicação de torque padronizado em 35N/cm ( chave de torque Dyna- Torque, Dyna Inc. USA) nos parafusos retentores de
todos os conjuntos, efetuando-se a inclusão à vácuo dos mesmos em resina acrílica. Nesta etapa, as amostras foram divididas em dois grupos, com uma peça de cada fabricante presente em cada: o GRUPO A foi secionado longitudinalmente no centro das amostras, e o GRUPO B foi secionado coronalmente, na porção onde os hexágonos dos implante e dos componentes se interdigitavam. O seccionamento foi realizado através de disco diamantado em um aparelho Isomet 50, Isomet Inc.USA. Após a seção, as faces de observação foram polidas através de discos abrasivos , imersas em 20 segundos em solução de agua+ácido fluorídrico à 10%, e lavados em solução de àgua+álcool em banho ultra-sônico. Após esta etapa, as amostras sofreram a deposição de uma camada de carbono visando aprimorar a observação no MEV.
       Nas observações, que objetivaram caracterizar a variação de posições e de dimensões dos diferentes implantes e componentes, foram utilizados aumentos aproximados de 10, 30, l OO e 200 vezes, em regiões igualmente padronizadas, procedendo-se a medição eletrônica das entre as paredes do hexágono externo dos implantes e as paredes do hexágono interno do componente protético -medidas M2 e M3 nos cortes longitudinais e M4 obtida nos cortes coronais. ( FIGURAS 2, 3 e 4 )

    
Figura 2 - Ilustração do ensaio de medição rotacional proposto
Figura 3 - A medida M4 refere-se à distância relacionada ao espaço criado entre o hexágono externo e a parede do componente protético na região do vértice dos mesmos em corte coronal
.
Figura 4 - A medida M1 refere-se ao deslocamento rotacional anti-horário da marcação realizada na interface implante/componente à partir da linha de parada no sentido horário

 

Resultados

       De acordo com as metas traçadas neste trabalho, os resultados obtidos possuem dois aspectos. O primeiro objetiva apresentar através da metodologia aqui proposta, os movimentos rotacionais à que estão sujeitos componentes conectados à implantes de hexágono externo padrão Branemarke, a medição precisa deste movimento através de recursos eletrônicod disponíveis em modernos microscópios eletrônicos de varredura.
    O segundo objetivo foi caracterizar, através de imagens e medições, a natureza física de conexões que envolvem os conceitos de folga e tolerância, procurando determinar uma relação entre as dimensões destes espaços com a amplitude dos movimentos de rotação encontrados nas referidas interfaces.
    Com este intuito, foram determinadas as regiões de medição, igualmente executadas através de "software" presente no equipamento de microscopia eletrônica de varredura Phillips XL40.
               Além do dispositivo que determina automaticamente a margem de erro previsto - inferior à 5%, cada medição foi repetida 5 vezes, sendo a média obtida o resultado tabulado:

 Amostra
M1
M2
M3
M4
1
111µm
-
-
44µm
2
128µm
20µm
10µm
-
3
091µm
-
-
52µm
4
166µm
40µm
25µm
-
5
099µm
-
-
43µm
6
116µm
50µm
09µm
-
7
075µm
-
-
30µm
8
111µm
14µm
09µm
-
9
082µm
37µm
28µm
-
10
081µm
-
-
24µm


     Alguns exemplos das imagens obtidas para as respectivas medições ilustram com clareza as variações dimensiónais encontradas. (Figuras 5, 6, 7, 8)

  

Figura 5 - Amostra Nº 4 da Nobelbiocare, observada em corte longitudinal através de MEV em aumento de 67X, apresentando a medição M2 e características dimensionais
Figura 6 - Amostra Nº 3 da Nobelbiocare, observada em corte coronal através de MEV em aumento de 200X, apresentando medição M4 e detalhe da conexão com afastamento de uma das paredes e aproximação da outra.


  
Figura 7 - Amostra Nº 9 da Intra-Lock, observada em corte longitudinal através de MEV em aumento de 69X, apresentando a medição M2 e características dimensionais
Figura 8 - Amostra Nº 10 da Intra-Lock, observada em corte coronal através de MEV em aumento de 200X, apresentando medição M4 e detalhe da conexão com afastamento de uma das paredes e aproximação da outra



Discussão

              A metodologia e o desenho apresentado por Branemark e seus colaboradores ganhou imensa aceitação em todo o mundo,justificando o aparecimento progressivo de uma série de implantes sob desenho e dimensões idênticos visando, entre outros aspetos, a intercambiabilidade de componentes.
              Como as indicações implantológicas à época da idealização deste modelo envolviam exclusivamente edentados totais, com a união, rígida dos implantes através da super-estrutura protética, as dificuldades decorrentes da eventual micro-movimentação entre componentes não eram perceptíveis a Curto e médio prazo ( Binon , 1995 ).
              Nesta ocasião, a adoção de um hexágono de apenas 0,5mm no topo dos implantes destinava-se unicamente à permitir a conexão e travamento de uma chave para sua devida introdução no tecido ósseo.
              Com o passar do tempo, as exigências mecânicas de longo prazo impostas às próteses suportadas por vários implantes e, principalmente, a crescente reabilitação de espaços protéticos unitários, passaram a suscitar discussões em torno da "anti-rotacionalidade" que caracterizaria os hexágonos ( Weinberg e Kruger, 1994 ). Contraposta à existência de alguns tipos de conexão obtidas por mero parafusamento de componentes, sempre muito vulneráveis ao desrosqueamento, um hexágono parecia oferecer uma perspectiva confiável de travamento rotacional ( Skalak , I 993 ).
              Foram os primeiros relatos de problemas advindos de uma suposta micro-movimentação neste tipo de conexão que ensejaram uma melhor percepção do modelo mecânico que o caracteriza ( Binon, 1996 ) .O primeiro conceito envolvido é a "folga", uma forma de desenho e construção de partes que, neste caso, podem ser encaixadas passivamente uma na outra. Quando idealizadas sob folga, sempre existirá um espaço entre cada uma delas, permitindo que a menor penetre na maior. Contrapondo-se à folga existe o conceito de "interferência"- onde as dimensões das conexões não apresentam espaço, exigindo força e deformação para que as partes se encaixem. ( Constantino et al., 1998 )
              Um terceiro conceito de mecânica relacionado ao assunto é o  de "tolerância". Ao produzir-se uma peça, aceita-se um espectro de variação em suas dimensões, decorrentes de vários fatores tais como processo de usinagem, propriedade do material, controle de qualidade, entre outros. Com isso, determina-se uma margem dentro da qual as medidas idealizadas para cada peça poderão oscilar. Na alternativa aqui estudada, por exemplo, tanto o hexágono macho, face coronal do implante, quanto o fêmea, no interior do componente, apresentarão uma determinada tolerância dimensional, tornando a conectabilidade entre peças idealizadas sob mesmas dimensões, mais ou menos "apertadas", "justas".
        O micro-movimento encontrado e ilustrado neste trabalho e em outros é, portanto, decorrente dos espaços resultantes da "folga" e da "tolerância" presente nos hexágonos externos padrão Branemark, e das cargas rotacionais impostas durante o movimento oclusal.
        Diversas tem sido as tentativas tecnológicas e industriais para, tentar minimizar os efeitos gerados pela limitação destas conexões sob os aspectos acima mencionados, sendo a maior parte delas relacionadas à redução das margens de tolerância. ( Binon, 1996 ). Equipamentos e processos de usinagem e controle, cada vez mais precisos parecem ter contribuído significativamente para a obtenção de espaços menores e mais regulares. Mesmo não, sendo o objetivo deste trabalho processar a comparação qualitativa de diferentes produtos, permite observar com clareza a variação dimensional significativa entre
diferentes fabricantes e, em alguns casos, entre duas amostras de um mesmo fabricante, Mais do que a possibilidade de eventuais problemas no controle de qualidade, não detectáveis neste trabalho pela inadequação do número de amostras, os resultados indicam e ilustram, no mínimo, a adoção de projetos de tolerância variados.
        Ainda sob este aspecto, podemos discutir diferentes estratégias na adoção de regimes de tolerância. Projetos sob dimensões mais reduzidas, mais "apertadas", resultam em espaços menores e, consequentemente, menor potenciaÍ de micro-rotação. Por outro lado, estas peças encaixáveis sob tolerâncias muito pequenas exigem cuidados substancialmente maiores no controle da qualidade, pois qualquer variação acima do limite estabelecido implica na possibilidade real dos componentes simplesmente não encaixarem completamente, comprometendo intensamente a estabilidade da conexão.
        Componentes usinados sob projetos de tolerância ampla trazem alguma facilidade no controle de qualidade dimensional, mas implicam na magnificação dos espaços internos e, como resultado direto, na amplitude dos movimentos de rotação. ( FIGURA 9 )

Figura 9 - Imagem em microscopia ótica de componentes em corte, ilustrando espaços determinados por folga e tolerância amplas.

        Também relacionada à este aspecto encontra-se o intercâmbio de implantes e componentes de diversos sistemas supostamente "compatíveis". Quando produzidos sob regimes de tolerância distintos ou controle de qualidade deficiente podem resultar em discrepâncias dimensionais significativas, comprometendo a estabilidade mecânica pretendida pela conexão.
        Outra alternativa tecnológica apresentada para reduzir a vulnerabilidade dos hexágonos como conexão implantológica tem sido relacionada ao desenho e processo de fabricação dos parafusos retentores, peça fundamental na ocorrência e intensidade destes problemas ( Jorneus et al., 1992). Nos projetos mais modernos, procura-se aumentar o atrito entre a cabeça destes parafusos e aborda do componente protético, na tentativa de aumentar a resistência do mesmo em relação a intermitência dos micro-movimentos rotacionais e o torque reverso resulltante. Além disso, projeta-se uma extensão do "pescoço" do mesmo para o alongamento do metal no momento da aplicação do pré-torque. ( FIGURA 10 ).

Figura 10 - Imagens em MEV ilustrando à esquerda projeto mais antigo e ao centro e à esquerda alternativas mais modernas onde os parafusos retentores são dotados de pescoço alongado para a absorção da deformação imposta pela aplicação de pre-torque.


        A utilização de diferentes materiais na confecção dos parafusos retentores, com propriedades distintas, ou mesmo o tratamento metalúrgico dispensado ao titânio representa mais uma linha de alterações que vem sendo aplicada para o incremento na capacidade de travamento deste componente.
        A relação do grau de travamento do parafuso retentor com a intensidade do torque aplicado no aperto do mesmo representa uma variável de grande importância ( Constantino e Vilella, 1988 ),
        Instrumentos para a aplicação de torque controlado representam medida importantíssima na otimização do travamento projetado para o parafuso retentor, conforme a especificação do fabricante.
        A modificação da localização do hexágono, proposta inicialmente por Niznick, usinando-o internamente no corpo do implante, permitiu um aumento considerável na dimensão das paredes, trazendo um aparente aumento na estabilidade do conjunto conectivo. Não se pode afirmar, entretanto; que a alternativa de hexágono interno seja mecanicamente diferente, na medida que os mesmos princípios de
folga e tolerância estão presentes, resultando em micro-movimentos. Mesmo nesta alternativa conectiva, projetos com espaços dilatados e/ou falta de controle de qualidade dimensional intensificam a vulnerabilidade mecânica do sistema conectivo.
        Nenhuma alternativa mecânica para conexões implantológicas conseguiram efetivar a eliminação do micro-movimento e apresentar extenso suporte em literatura científica quanto as chamadas "junta Morse", Sistema clássico de interferência vastamente utilizado nas mais diversas aplicações conectivas, esta modalidade foi introduzida na conexão de implantes à componentes protéticos pelo grupo suiço conhecido por International Team for Oral Implantology - ITI (Schoroeder et al. ) inspirando um número crescente de fabricantes
à adotar esta alternativa.
       Em 1998, Constantino apresenta uma alternativa de conexão tipo junta Morse com dupla interferência, denominada "Double-Gripâ", obtendo uma faixa de travamento sob torque aplicado de 35N com resistência ao desrosqueamento na faixa de 37 Newtons. FIGURA 11)


Figura 11 - Imagens em corte de conexão denominado "Double-Grip" observada em MEV, ilustrando as duas regiões de interferências simultâneas.
                                    
Conclusões


       Nas condições dos testes realizados neste trabalho, podemos concluir que:

    
  1. Componentes protéticos conectados à implantes desenhados sob hexágono externo padrão Btanemark estão sujeitos à micro-movimentos rotacionais.
      2. Apesar de serem comercialmente apresentadas sob dimensões iguais, as marcas testadas apresentaram amplitudes rotacionais estatisticamente diferentes ao nível de 5%; oscilando de 75mm à 128mm.
      3. Das 5 marcas comerciais testadas, 2 apresentaram diterenças nos resultados rotacionais encontrados entre suas próprias amostras.

        O melhor conhecimento das características mecânicas das conexões tipo hexágono externo de Branemark tem permitido o aprimoramento das variáveis envolvidas em suas principais características, resultando na sensível redução dos problemas de instabilidade conectiva.
        Projetos envolvendo regimes de folga/tolerância reduzidos, métodos de usinagem de alta precisão, processos de controle de qualidade dimensional de alto rigor e aplicação de torque controlado no aperto de componentes são mandatórios para assegurar a estabilidade mecânica da mais dIfundida alternativa de conexão entre implantes e componentes protéticos.
             

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* Prof. do Curso de Especialização em Implantodonti da UNITAU - Especialista em Implantodontia - CFO - Mestre em Odontologia - US - Doutorado em Bio-Materiais - IPE/USP - Ex-Presidente da Associação Paulista de Implantologia Oral - APIO - Membro de International Ralations Commitee da Academy of Osseointegration - USA.