Ação
da clorexidina no controle da placa bacteriana peri-implantar
*
Nelson J. Fernandes Graça - **Simone Saldanha Ignácio de Oliveira
Resumo
Este estudo faz uma revisão da literatura com o objetivo de
analisar os aspectos clínicos da placa bacteriana observada ao redor dos implantes
dentários frente à utilização da clorexidina. A microflora periodontal é bastante
semelhante à peri-implantar, tanto no que se referem às suas condições de saúde
como de doença, podendo a avaliação dessas condições ser determinante no sucesso
dos implantes. É necessária a detecção precoce do problema para que se possam
traçar estratégias terapêuticas que revertam este quadro. O controle químico
da microflora e placa bacteriana pode ser um coadjuvante eficiente tanto nos
casos de mucosite peri-implantar como nos de peri-implantite.
Abstract
This study makes a revision of the
literature with the purpose of to analyse clinical aspects of bacterial plaque
observed around dental implants with the use of chlorhexidine. The periodontal
microflora is enough similar to peri-implant microflora, as much in its health
as disease conditions and the evaluation of those conditions can be determinative
for the success of dental implants. It's necessary to detect the problem so
that can be make use of therapeutic strategies that revert the situation. The
chemical control of the microflora and bacterial plaque can be an effective
coadjutant of mucositis and periimplantitis.
Palavras-Chave
Controle químico da placa bacteriana,
Peri-implantite, Clorexidina
Key Words
Chemical control of bacterial
plaque, periimplantitis, chlorhexidine
Introdução
A presença de placa bacteriana
ao redor de implantes dentários ósseointegrados tem sido considerada como um
dos fatores predisponentes para a perda dos mesmos. A sua presença por tempo
indeterminado leva a situações muitas vezes catastróficas para a permanência
do implante.
O uso de agentes quimioterápicos
de ação desagregante da placa bacteriana apresenta um grande potencial na prevenção
deste quadro e no controle da microflora peri-implantar.
Revisão da Literatura
A cavidade oral possui uma microbiota
complexa e variada que inclui estreptococos mutans, viridans, sanguis entre
outros. Os procedimentos odontológicos, principalmente os que causam injúria
de tecidos moles, podem disseminar microorganismos por órgãos vitais como coração,
cérebro e fígado (WHILEY et al, 1992; SLOTS, TAUBMAN, 1992). O Gluconato de
Clorexidina é um bactericida oral de largo espectro, catiônico, que foi introduzido
no mercado em meados dos anos 70 na Inglaterra, como desinfetante para bactérias
Gran ( -) e Gran ( + ). Por sua ação abrangente, é capaz de reduzir a contaminação
por aerossóis, diminuir a incidência de complicações pós-cirúrgicas, prevenir
a ocorrência de gengivite e a formação da placa bacteriana (SIQUEIRA, UZEDA,
1997; GJERMO, 1989; LOPES, 1992). O uso deste anti-séptico tem sido recomendado
como coadjuvante no tratamento odontológico tanto na prevenção como no controle
de infeccões ligadas aos procedimentos dentários, sendo este agente químico
considerado o mais efetivo e documentado (EMILSON, 1994; ULLSFOSS et al, 1994).
Os implantes dentários vêm se
firmando como uma solução para ausências dentárias cada vez mais seguros e confiáveis.,Apesar
dessas condições, os implantes ósseointegrados ainda são susceptíveis a insucessos,
principalmente os relacionados a:
-Má distribuição de forças oclusais
-Procedimentos cirúrgicos traumáticos
-Erros de planejamento
- Infecção bacteriana
A presença de processos infecciosos
na região ao redor do implante será responsável por uma reação inflamatória
dos tecidos moles denominada mucosite peri-implantar. Os casos em que esta mucosite
não é tratada, evolui para uma peri-implantite que consiste em uma inflamação
dos tecidos moles associada à perda óssea (BAUMAN et al, 1992).A evolução deste
quadro com a presença constante de dor ao longo do implante pode significar
a perda do mesmo, principalmente se associado à mobilidade. Deve ser ressaltado
que, segundo alguns autores, pequenas mobilidades horizontais, quando associadas
a traumas oclusais ou processos periodontais, podem retomar a sua condição normal
quando tratadas.
Estudos têm demonstrado a semelhança entre
a flora ao redor dos implantes e a existente ao redor de dentes naturais (LEKHOLM
et al, 1985; MOMBELLI & LANG, !994). Desta forma, os procedimentos terapêuticos,
salvo alguns pequenos cuidados específicos, tornam-se comuns aos dois.
Controle da Placa Bacteriana
Através de estudos sabe-se que
a doença periodontal é uma infecção tratável e, portanto, passível de controle
e prevenção. O controle da placa bacteriana ao redor dos implantes tem pautado
sua detecção ao exame clínico. A detecção precoce da placa e a sua remoção são
fundamentais para a saúde do peri-implante. Esta análise, ao exame clínico,
consiste na observação de alguns sinais como: presença de mobilidade, supuração,
sangramento, placa e bolsa periodontal. Para a sondagem de bolsas ao redor dos
implantes, o profissional deve lançar mão de sondas plásticas de forma a não
danificar a superfície dos cilindros. Do mesmo modo, a remoção de cálculos requer
o uso de curetas especiais. Segundo FIGUEREDO, dor, mobilidade vertical, perda
óssea progressiva e radiolucidez generalizada são fenômenos relacionados com
o insucesso.
O controle químico da placa
bacteriana através do uso do gluconato de clorexidina, já ocupa um lugar de
destaque na literatura. Tal fato se deve a necessidade de inibição da placa
bacteriana em indivíduos com dificuldade ou incapacidade de faze-lo mecanicamente.
Segundo RAMOS ( 1997) citando LOE, devido a acentuada ação de inibição do desenvolvimento
da placa e, consequentemente, da doença periodontal, a clorexidina tem sido
extensivamente utilizada em periodontia. Inúmeras investigações têm sugerido
o uso de bochechos diários de clorexidina para a redução da placa bacteriana
e gengivite (LOE & SCHlOTT, 1970; GJERMO, 1974; GREENSTEIN, 1986; SEGRETO,
1986), impedimento na formação de cálculos (DAVIS, 1970; LOE & SCHIOTT ,
1970) e degeneração de grandes acúmulos de placa com reversão do quadro de gengivite
crônica (LOE & SCHlOTT, 1970). A clorexidina, na placa, tem uma ação desalojante
de pontes de cálcio, fator de adesividade de microorganismos, o que impede sua
formação (DA VIES, 1973; HAMP &EMILSON, 1973). Uma preocupação constante
com ouso regular de agentes antimicrobianos locais é o desenvolvimento de resistência
à droga e o seu grau de toxidade e no caso específico da clorexidina, os efeitos
colaterais locais. Entretanto, como relata a literatura, os estafilococos, os
estreptococos do grupo mutans, Escherichia coli, apresentam alta susceptibilidade
a clorexidina (EMILSON, 1977). Os níveis de toxidade são extremamente baixos,
possivelmente pelo fato da clorexidina ser rapidamente adsorvida e pouco absorvida
(LOE, 1973). Quanto aos efeitos colaterais como manchas nos dentes e alteração
no paladar, têm sido contornados através do uso de jatos de bicarbonato de sódio
ou espaçamento no uso do fármaco.
Considerações Finais
A literatura é ampla e contundente
no que se refere à ação da clorexidina no controle da placa bacteriana. Estudos
não demonstraram efeitos deletérios da clorexidina sobre a superfície de titânio
dos implantes, mas a sua utilização a longo prazo no controle de mucosite e
peri-implantite em implantes com tratamento de superfície ainda demandam mais
pesquisas.
BibliografIa
*Especialista
em Cirurgia Buco Maxilo Facial. Diretor da Fac. de Odontologia da Soc. Pestalozzi
do Rio de Janeiro. Coordenador do Módulo de Cirurgia em Implantodontia da Fac.
de Valença. Coordenador do Curso de Cirurgia Oral- ABO Niterói. Mestrado em
Odontologia Social UFF
**Especialista em Docência Superior. Consultora Científica do Jornal
Brasileiro de Clínica Odontológica. Profa. da Disciplina de Oclusão -UFF. Mestrado
em Odontologia Social- UFF